Lágrimas nas Primeiras Páginas: O Poder de “Hamnet” de Maggie O’Farrell
Comecei “Hamnet” ontem à tarde e, desde então, o mundo parou. Mal largo o livro. As páginas parecem puxar-me para dentro de uma casa em Stratford-upon-Avon no século XVI, onde o ar cheira a ervas, pão quente e ao peso invisível de uma peste que se aproxima.Maggie O’Farrell tem um dom raro: consegue tocar directamente no coração sem aviso. Logo no início, acompanhamos a pequena Judith, a filha de William Shakespeare e de Agnes, e a forma como a autora descreve a sua fragilidade e a inquietação da mãe deixou-me com um nó na garganta. Judith é gémea de Hamnet, e saber o que a história reserva (tanto para ela como para o irmão) torna cada cena ainda mais dolorosa. Virei uma página e dei por mim a murmurar, com a voz embargada: “Caramba, eu estou a chorar!”As lágrimas surgiam sem pedir licença. Sentia o peito apertado, como se estivesse ali, naquela casa modesta, a testemunhar o terror silencioso dos pais perante a doença que chegava. O luto descrito é tão cru, tão humano, que me fez ...






