Conto “Entre Trás-os-Montes e a Eternidade”
Feche
os olhos por um instante… e imagine o norte de Trás‑os‑Montes
há mais de um século.
As montanhas erguem-se silenciosas, cobertas por
vinhas, oliveiras e campos que mudam de cor conforme as estações. No inverno, o
frio corta como lâmina; no verão, o sol amadurece as uvas e enche o ar com o
cheiro da terra quente.
Foi ali, numa pequena aldeia perdida entre montes
e caminhos de pedra, que nasceram dois irmãos gémeos.
Joaquim e Alexandrino.
Joaquim era o mais velho por poucos minutos, mas
na aldeia isso bastava para definir um destino. Era chamado por todos de “o
Morgado”, pois estava destinado a herdar a quinta da família —
uma propriedade antiga, passada de geração em geração.
Alexandrino, por sua vez, tinha outro caminho
traçado.
Como não herdaria a terra, o pai decidiu enviá-lo
para estudar na antiga e prestigiada Universidade
de Coimbra. Ali deveria tornar-se um homem de letras, talvez médico,
talvez advogado — alguém que conquistasse o mundo para além das montanhas de
Trás-os-Montes.
Mas, antes de qualquer destino, eles eram
apenas dois rapazes.
E juntos eram praticamente inseparáveis.
Na aldeia, todos conheciam as suas
travessuras. Subiam às figueiras do vizinho para roubar fruta, soltavam os
animais do curral só para depois correr atrás deles pelos campos, e inventavam
histórias fantásticas para assustar os miúdos mais novos.
Quando riam juntos, parecia que o mundo
inteiro era simples.
Talvez por isso, quando chegou o dia da
partida, Joaquim sentiu algo estranho no peito.
A carroça que levaria Alexandrino até à
estação aguardava junto ao caminho de terra. O pai falava sério, dando
conselhos. A mãe enxugava discretamente as lágrimas.
Mas Joaquim… apenas olhava.
Sentia que metade da sua própria vida
estava prestes a ir embora.
Alexandrino partiu para Coimbra.
E a aldeia nunca mais foi a mesma.
Durante meses — depois anos — os dois
irmãos comunicavam por cartas. Joaquim esperava o carteiro com ansiedade quase
infantil. Sentava-se à mesa da cozinha e lia cada linha lentamente, como se
quisesse prolongar a presença do irmão.
Nas cartas, Alexandrino falava da cidade,
das ruas movimentadas, das discussões políticas acesas entre estudantes.
Foi ali que algo dentro dele mudou.
Alexandrino tornou-se republicano,
fervoroso defensor de um novo país, contrário à monarquia que ainda governava
Portugal sob o reinado de Dom Luís I.
Essa escolha trouxe-lhe problemas.
Num protesto estudantil, acabou preso.
Quando a notícia chegou à aldeia, o pai
ficou devastado. Pediu a um tio que fosse buscá-lo imediatamente.
Joaquim, fiel às tradições da família e
monárquico convicto, não compreendia a revolta do irmão — mas nunca deixou de o
amar.
Porque o sangue e o coração falam mais alto
do que qualquer ideologia.
Depois de libertado, Alexandrino voltou
para casa… mas não ficou.
O mundo chamava por ele.
Partiu numa longa viagem, atravessando
mares e terras distantes. Enquanto isso, Joaquim permaneceu em Trás-os-Montes,
assumindo a quinta quando os pais faleceram.
Casou-se. Teve filhos. Trabalhou a terra
como os seus antepassados.
E todos os dias, de alguma forma, sentia a
ausência do irmão.
As cartas continuaram.
Agora vinham das ilhas do Atlântico — dos
verdes e misteriosos Açores.
Ali, Alexandrino tinha encontrado algo
inesperado: amor.
Apaixonou-se por uma mulher açoriana e
tornou-se médico numa pequena freguesia chamada Ponta
Garça.
Curava doentes, ajudava pescadores, trazia
crianças ao mundo.
Mas, mesmo entre o mar e as montanhas das
ilhas, nunca esquecia Trás-os-Montes… nem o irmão.
Os anos passaram como folhas levadas pelo
vento.
Cabelos escurecidos tornaram-se brancos. As
mãos tornaram-se mais lentas.
Até que, já velho, Alexandrino decidiu que
era hora de regressar.
Queria ver Joaquim mais uma vez.
Quando finalmente chegou à aldeia, os dois
irmãos abraçaram-se como se o tempo nunca tivesse passado.
E pouco tempo depois, Alexandrino partiu
deste mundo… em paz, cercado pela esposa, pelos filhos… e pelo irmão que sempre
amara.
Mas a história deles não terminaria ali.
No outro mundo — dizem as histórias —
Alexandrino caminhou pelos corredores silenciosos da eternidade. Procurava
apenas uma coisa.
Joaquim.
Diante do mistério do universo, fez um
pedido simples:
Não queria entrar no céu sem reencontrar o
irmão.
O seu desejo foi ouvido.
E, segundo antigas crenças espirituais, foi
o próprio Buda quem lhe concedeu uma nova
oportunidade.
Assim, em 1976, Alexandrino voltou a
nascer.
Agora em Portugal… com o nome José
Luís Santos.
Alguns anos depois, também Joaquim
terminaria a sua jornada.
Em 1910, quando a monarquia caiu após a Implantação da República Portuguesa, Joaquim
tomou uma decisão surpreendente. Para impedir que o novo regime confiscasse os
bens da família, deixou a quinta para o povo da aldeia.
Quando morreu, foi sepultado com
simplicidade.
Os habitantes recordavam-no com carinho e
chamavam-lhe:
— o santo pobrezinho.
E também ele recebeu uma nova vida.
Em 1983, nasceu novamente — agora com o
nome André
Vilaça.
Décadas passaram.
As memórias de vidas antigas ficaram
escondidas em algum lugar profundo da alma.
Até que chegou um dia frio de dezembro de
2012.
André descia umas escadas para encontrar um
amigo chamado Hugo.
Na sala estava outro homem.
Chamava-se Zé.
Quando os olhos dos dois se cruzaram… algo
estranho aconteceu.
Não era apenas simpatia.
Não era apenas curiosidade.
Era uma sensação antiga, profunda,
impossível de explicar.
Como se duas partes da mesma história
finalmente se reconhecessem.
Talvez nenhum deles soubesse
conscientemente porquê.
Mas as almas… essas lembram-se.
E assim, depois de atravessar montanhas,
oceanos, revoluções, vidas e mortes…
Dois irmãos de Trás-os-Montes voltaram a
encontrar-se.
Porque alguns laços não pertencem apenas a
uma vida.
Pertencem
à eternidade.
André Vilaça



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