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O conto : O Dia em Que o Mundo Perdeu Luke Combs… e Ele Estava na Minha Sala
Estava na sala de casa.
A luz estava desligada, mas a
claridade pálida de um dia frio de fevereiro entrava pelas janelas,
espalhando-se pelas paredes como um lençol branco. Em Portugal, fevereiro tem
esse frio húmido que parece infiltrar-se nos ossos. A casa estava silenciosa. Tranquila.
Peguei no telemóvel, sem intenção
especial. Só para tirar uma fotografia ao acaso — talvez da sala vazia, talvez
da luz a bater no sofá.
Mas, no instante em que levanto o
telemóvel…
Uma sombra atrás de mim.
Uns olhos arregalados.
E uma voz, meio aflita, meio a
rir:
— Estás a tirar foto?! Não metas
isso no Facebook, por favor!
Viro-me devagar.
Ali estava ele.
O homem que o mundo inteiro
procurava.
Luke Combs.
Sentado na minha sala.
Em Portugal.
Dias antes…
No Instagram, numa página de fãs
que sigo religiosamente, o ambiente era de preocupação. O administrador tinha
publicado uma foto antiga, com legenda dramática: “Onde raio se meteu o Luke
Combs?”
Ele tinha desaparecido depois de
gravar o novo álbum. Nenhuma aparição pública. Nenhuma entrevista. Nenhum post.
O mundo do country murmurava teorias. Alguns falavam em estratégia de
marketing. Outros temiam esgotamento.
Eu, numa mistura de brincadeira e
ousadia, escrevi um comentário privado:
“Se quiser desaparecer por uns
dias, vem para minha casa, em Portugal. Aqui ninguém te chateia.”
Enviei. Ri-me sozinho.
Claro que ele nunca responderia.
Mas respondeu.
Disse que estava interessado.
E dias depois… estava ali. À
minha mesa. A jantar com a minha família.
Desliguei o telemóvel e
sorri-lhe. Ele estava sentado, simples, quase tímido, como se não fosse uma das
vozes mais reconhecidas da música country.
— Diz à tua família que agradeço
muito terem-me recebido. Sério, obrigado — disse ele em inglês.
Traduzi.
A minha mãe, curiosa como
qualquer mãe portuguesa, não perdeu tempo:
— Pergunta-lhe porque desapareceu
assim, sem dizer nada a ninguém.
Ele riu-se. Aquele riso meio
culpado, meio divertido que já vi tantas vezes nas entrevistas.
— Diz à tua mãe que eu só queria
ser, por uns dias, um tipo qualquer. Sem fama. Sem gente a reconhecer-me pela
rua só por causa da voz ou das músicas.
Olhou para mim, com um sorriso
irónico.
— Sem ofensas, claro. Só preciso
de voltar a ser o Luke que tocava em bares com serradura no chão. Quando vi o
teu comentário a convidar-me… pensei: “Por que não? Parece o sítio perfeito
para me esconder.”
Traduzi cada palavra.
A minha mãe abriu um sorriso
caloroso:
— Seja bem-vindo à nossa humilde
casa, senhor Luke Combs.
Ele inclinou a cabeça, educado.
— Obrigado, Dona Tina.
E naquele instante deixou de ser
“o artista”. Era apenas o Luke.
— Então o Luke dorme no meu
quarto? — perguntei, já a fazer contas à vida.
— Não, André. Tu vais para o
sofá-cama. Ele fica no teu quarto.
— Que seca…
Ele ouviu. Riu-se.
— Eu aceito dividir o quarto com
o meu fã Vilaça. Pelo menos faz-me companhia.
Eu nem queria acreditar.
Dividir quarto com o Luke Combs.
O meu quarto é pequeno. Mas
improvisei. Arranjei uma cama extra. Ele vestiu o pijama, deitou-se… e antes
mesmo de eu começar a falar, já ressonava suavemente.
Estava exausto.
Nos dias seguintes, os meus
amigos começaram a estranhar o meu ar tranquilo perante o “desaparecimento”
mundial.
O Zé, desconfiado, decidiu
seguir-me até casa.
Quando abri a porta…
Deu de caras com o matulão do
country.
Ficou branco.
— Tens de prometer que não contas
a ninguém… por agora — pedi eu.
— Quem é que ia acreditar em mim?
— respondeu ele. — Mas tenho de contar ao Hugo e ao David. Não aguento guardar
segredo sozinho.
Concordei.
O Zé apontou para o Luke:
— Eu sabia que escondias alguma
coisa. Por isso te segui.
O Luke levantou-se, estendeu a
mão com naturalidade.
— Tens fome? Aprendi umas coisas
com a mãe do André.
E depois, orgulhoso:
— Eu sou o Luke Combs.
— Eu sei quem és. Eu sou o Zé
Luís.
Apertaram as mãos.
E minutos depois, o astro
internacional estava de avental posto, a ensinar-nos a mexer melhor os
temperos.
— Peguem num avental e venham
para aqui ao pé de mim!
Os dias passaram a ter outro
sabor.
Acordávamos cedo. Íamos ao
pequeno-almoço ao café Ipa. Lá, ninguém o conhecia. Só gente mais velha,
habituada a outras músicas, outros tempos.
Era perfeito.
Passeávamos pelas ruas como se
ele fosse apenas um turista americano alto demais.
Um dia, porém, uma estrangeira
reconheceu-o.
—
Oh my God… are you—?
Nem deixámos acabar.
Corremos.
No meio da multidão.
A rir como dois miúdos traquinas.
Só parámos quando já não havia
perigo.
A partir daí, boné e óculos
escuros tornaram-se obrigatórios nos sítios mais turísticos.
Fomos até Oliveira do Bairro, a
casa do Zé. De comboio.
O Hugo não fazia ideia do que o
esperava na estação.
Quando saímos da carruagem e o
Luke apareceu ao meu lado…
O silêncio foi absoluto.
Depois, gargalhadas incrédulas.
Passámos os cinco juntos como se
fôssemos amigos de infância.
À noite, fomos ao Quartel das
Artes. O cantor programado tinha adoecido. O concerto ia ser cancelado.
Olhei para o Luke.
Ele olhou para mim.
Tive uma ideia arriscada.
— Segue-me.
Subiu ao palco.
Pegou numa guitarra emprestada.
E começou a tocar os acordes de Beautiful
Crazy.
A voz encheu a sala.
Quente. Profunda. Inconfundível.
As pessoas olhavam em volta,
confusas.
“Quem é este gajo?”
Quando terminou, um velhote
levantou-se e gritou:
— Temos cantor!
A sala explodiu em aplausos.
Foi o primeiro — e completamente
inesperado — concerto de Luke Combs em Portugal.
Ali, naquele palco pequeno, com
luzes modestas e cadeiras quase todas ocupadas por desconhecidos, ele fechou os
olhos por um instante.
E eu percebi.
Ele lembrara-se.
Dos fãs preocupados. Das
manchetes. Da família dele.
Estava na hora de voltar.
Despediu-se de nós os quatro com
abraços demorados. Agradeceu à minha mãe. Ao meu pai. À casa que o escondeu do
mundo.
E partiu de volta para a América.
Algum tempo depois, numa
entrevista televisiva, perguntaram-lhe onde tinha estado.
Ele sorriu.
Ajeitou-se no sofá.
E respondeu, com aquele tom calmo
e ligeiramente irónico:
— Não vos posso dizer exatamente
onde me escondi. Quero manter no anonimato a minha nova família portuguesa… e
uns amigos que arranjei por lá. Digamos que foram os melhores dias sem fama que
já tive em muito tempo.
Nós, sentados na sala, vimos a
entrevista em silêncio.
A mesma sala onde tudo começara.
A mesma luz a entrar pela janela.
E, por um momento, pareceu-nos
quase ouvir outra vez:
— Estás a tirar foto?! Não metas
isso no Facebook, por favor!
E sorrimos.
Porque sabíamos.
Foram dias secretos.
Improváveis.
E absolutamente inesquecíveis.
André Vilaça
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