O Peregrino do Comboio
Vou-vos
contar uma história — juro que é tudo verdade. Quando a ouvi, não queria
acreditar no que estava a ouvir, de tão bonita que era.
Estava eu no comboio para Aveiro. Como habitual,
ia cheio, e em Espinho saiu metade das pessoas. Foi então que reparei num homem
que me fazia lembrar o meu tio Obélix. Trazia uma mochila com uma concha de
Santiago de Compostela e um pau simples na mão.
— Tu falas inglês?
Respondi que sim. Pensei que falar com ele seria
difícil para mim, mas não foi preciso grande esforço. Ele começou então a
contar a sua história.
Vinha de Berlim, na Alemanha. Tinha feito o
caminho a pé até Santiago de Compostela e, depois, seguiu até Fátima. Estava
agora no Porto, de onde apanharia o comboio para regressar a casa.
Continuou a falar. Disse que tinha saudades de
casa, sobretudo da sua cama. Perguntei-me por que razão teria feito uma viagem
tão longa. Foi então que contou que tivera cancro e que sobrevivera. Por isso,
decidiu tornar-se peregrino. Já conhecia Santiago de Compostela, mas tinha
ouvido falar de Fátima e decidiu visitá-la também.
No caminho para Santiago, encontrou o pau a
boiar num rio e decidiu apanhá-lo. Desde então, tornou-se a sua companhia de
viagem.
Ele falava e eu ouvia com atenção. Quando
chegámos a Aveiro, despedimo-nos. Ele continuou a sua viagem e eu fui ter com o
Zé.
Viajo de comboio há muitos anos, mas nunca
tinha ouvido uma história assim — de superação e fé. Não lhe perguntei o nome,
nem lhe disse o meu.
Mas que história bonita eu ouvi. E agradeço
a Deus por ter sido um dos privilegiados a escutá-la.
André
Vilaça



Comentários
Enviar um comentário