A Casa às Riscas Vermelhas

 

Ele apareceu na minha vida quando eu mais precisava de ajuda.

Não sei se alguém vai acreditar nestas palavras que estou a escrever. O mundo mudou demasiado. Hoje viajamos para outros planetas e fazemos viagens no tempo quase com a mesma facilidade com que, antigamente, se tomava uma vacina.

Agora estou velho. Mas quando tudo isto aconteceu eu era um homem completamente diferente — perdido, cansado da vida e ainda a tentar lidar com a morte de um amigo muito querido.

Foi nessa altura que começaram os acontecimentos estranhos.

Todas as noites alguns livros da minha estante caíam ao chão. Nunca todos de uma vez. Caíam sempre um de cada vez… e sempre na mesma ordem.

Primeiro o da esquerda. Depois o do meio. Mais tarde outro ao lado. E, por fim, o último.

Durante semanas pensei que fosse apenas imaginação. Talvez o stress… ou talvez, quem sabe, o espírito do meu amigo que tinha morrido há pouco tempo.

Mas havia um padrão demasiado perfeito para ser coincidência.

Um dia sentei-me à mesa com papel e caneta e comecei a observar tudo com atenção. Anotava as posições dos livros, a sequência em que caíam, o tempo entre cada queda. Parecia que estava a tentar resolver um puzzle.

E, pouco a pouco, comecei a perceber que aquilo não era aleatório.

Eram códigos.

Difíceis de explicar agora, mas na altura tudo parecia fazer sentido.

Comecei a juntar letras, palavras e números… até que finalmente surgiu uma frase.

Quando olhei para o papel onde tinha escrito tudo, li algo que me deixou completamente confuso:

“Costa Nova do Prado
3830-451 Gafanha da Encarnação
Casa às riscas vermelhas entre as casas verdes e pretas.”

Fiquei a olhar para aquilo durante longos minutos sem perceber o que significava.

Nessa noite fui deitar-me com a cabeça cheia de perguntas.

Mas o que aconteceu a seguir foi ainda mais estranho.

Quando acordei… havia um homem no meu quarto.

Ele estava simplesmente ali, parado, a olhar para mim como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Era alto, um pouco gordinho, com cabelo castanho e olhos azuis muito claros. Tinha aquele ar típico de alguém do norte da Europa — talvez da Suécia ou da Estónia.

Assustei-me tanto que quase caí da cama.

Foi então que ele falou, com uma calma impressionante.

— Eu chamo-me Tomás Hoolvelson. Sou um mensageiro do futuro. Tenho uma mensagem para ti… apenas para ti.

Fiquei a olhar para ele sem saber se devia rir ou fugir.

— Do futuro? — perguntei finalmente. — De onde vieste? E como é que entraste na minha casa?

Ele respondeu com a maior naturalidade do mundo.

— De uma máquina do tempo. E venho em nome de Rodrigo Ludovico.

O nome deixou-me ainda mais confuso.

— Rodrigo Ludovico? Mas… ele é o meu sobrinho. Tem apenas seis anos! Como poderia ele mandar-te?

Tomás suspirou.

— No futuro de onde eu venho, ele tem quarenta anos. E foi ele que me pediu para mudar o teu destino.

— O meu destino? — repeti.

Ele olhou para mim com uma expressão séria.

— No futuro… tu já não existes.

Senti um frio atravessar-me o corpo.

— Como assim?

Tomás hesitou por um momento antes de responder.

— Não conseguiste suportar a depressão… e acabaste por tirar a própria vida.

Senti uma mistura de raiva e medo.

— Eu o quê?! — gritei. — Sai já daqui, seu maluco!

Mas ele não perdeu a calma.

— Amanhã volto. E para provares que não estou a mentir, presta atenção ao que vai acontecer.

Ele aproximou-se da porta.

— A tua psicóloga, a Dra. Anderson, vai bater com a cabeça na porta do consultório… e tu vais rir. Vai ser a primeira vez em meses que vais sorrir. E antes do dia acabar vais receber uma notícia que te fará feliz.

Depois abriu a porta.

— Até amanhã.

— Desaparece daqui! — gritei.

Corri para a cama e escondi-me debaixo dos cobertores, repetindo para mim mesmo que aquilo era apenas um sonho estúpido.

No dia seguinte fui à consulta com a minha psicóloga, a Dra. Anderson.

Quando ela entrou no consultório…

bateu com a cabeça na porta.

Foi tão inesperado que não consegui evitar.

Comecei a rir.

Uma gargalhada verdadeira.

Percebi naquele momento que era a primeira vez em meses que eu ria de verdade.

Mais tarde, nesse mesmo dia, recebi uma notícia inesperada… uma notícia que me deixou genuinamente feliz.

Nessa noite, Tomás voltou.

E, contra todas as expectativas, começou realmente a ajudar-me.

Disse-me que precisava de garantir que eu continuava vivo no futuro dele.

E para isso precisava de me ensinar a voltar a ser feliz.

Ter o Tomás comigo vinte e quatro horas por dia era estranho… mas, ao mesmo tempo, tornou-se rapidamente algo natural.

Ele adorava bolas de Berlim. Todas as manhãs acordava cedo e ia à padaria comprá-las frescas e quentinhas. Voltava para casa como se tivesse descoberto um tesouro.

Uma vez contou-me que já tinha visto o final de One Piece. Mas recusou-se completamente a contar-me o que acontecia.

— Algumas coisas têm de ficar no futuro — dizia ele, a rir.

Também me contou que, no futuro, os humanos descobriram um planeta onde era possível controlar o tempo. Nesse planeta existiam bibliotecas do passado, do presente e do futuro. Foi lá que aprenderam a dominar as viagens temporais.

Quando terminasse a missão comigo, ele iria viajar para esse planeta para estudar o tempo. Era esse o curso que estava a tirar.

Tomás tinha nascido em Gotemburgo. A mãe era sueca e o pai era estoniano. Tinha vindo estudar para Portugal, para a Universidade de Aveiro, no departamento de viagens no tempo.

O filme preferido dele era O Padrinho.

— Para mim é o filme perfeito — dizia.

Uma vez contou-me que ele e alguns amigos tinham viajado até 1977 para assistir à estreia de Star Wars no Chinese Theatre, em Hollywood.

— Vestimos roupa dos anos 70 — contou ele com entusiasmo. — Ninguém suspeitou que éramos do futuro.

Perguntei-lhe se tinham sido descobertos.

Ele riu-se.

— Claro que sim. Mas essa é a melhor parte… a adrenalina de saber se vamos ser apanhados ou não.

Também me explicou que a universidade enviava viajantes do tempo para ajudar pessoas do passado.

Ele não era o único.

Mas havia uma regra absoluta.

Nunca viajar para o futuro.

— O futuro a Deus pertence — disse ele.

Era o lema do departamento.

Os anos passaram depressa.

Tomás tornou-se parte da família.

Treinávamos kombatan juntos. Eu cheguei ao cinturão preto e ele ao azul.

Também fizemos uma viagem a pé até Santiago de Compostela, porque esse era um dos sonhos dele.

Lembro-me perfeitamente de o ver a olhar maravilhado para a cidade.

— É estranho — disse ele. — Parece medieval e moderna ao mesmo tempo.

Tirámos uma fotografia juntos para recordação.

Dois anos depois, numa manhã, acordei… e ele já não estava.

Tomás tinha partido.

A missão dele estava concluída.

Eu era feliz outra vez.

Eu voltara a existir no futuro.

Continuei a minha vida normalmente, guardando para mim tudo aquilo que sabia. Ninguém acreditaria se eu contasse… e talvez até pudesse alterar o curso da história.

Foi então que me lembrei do bilhete.

Aquela morada.

A mensagem que os livros tinham formado.

Decidi ir até lá.

Era sábado quando cheguei à Costa Nova.

Vi imediatamente a casa às riscas vermelhas entre as outras casas coloridas.

O coração batia-me com força.

Aproximei-me da porta… e bati.

Ouvi uma voz lá dentro.

— Já vou!

Era uma voz estranhamente familiar.

A porta abriu.

E eu fiquei completamente imóvel.

Era o Tomás.

Mas muito mais novo.

Ele olhou para mim com curiosidade.

— Desculpe… nós conhecemo-nos?

Nesse momento reparei em algo atrás dele.

Numa mesa da sala havia uma pequena estante com cinco livros… exatamente iguais aos meus.

Tomás seguiu o meu olhar e sorriu.

— Ah… isto? É um projeto da universidade.

Pegou num dos livros e acrescentou:

— Estamos a testar um método antigo de comunicação com o passado.

O livro escorregou-lhe das mãos e caiu no chão.

Depois outro.

E outro.

Sempre na mesma ordem.

Exatamente como na minha casa… anos antes.

Tomás voltou a olhar para mim.

E, pela primeira vez, pareceu reconhecer-me.

O sorriso desapareceu lentamente do rosto dele.

— Espera…

Deu um passo atrás.

— Tu… és ele.

— Quem? — perguntei.

Tomás ficou pálido.

— O homem que me ensinou a ser feliz.

E foi nesse instante que percebi a verdade.

Eu não tinha sido salvo por um viajante do tempo.

Eu tinha sido preparado… treinado… para um dia me tornar um.

E quando esse dia chegasse…

seria eu a viajar para trás no tempo.

Para salvar o Tomás.




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