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Os Lusíadas — a nossa grande epopeia e faz ter orgulho em ser português
Eu ando na onda da Odisseia, muito por causa do filme de Christopher
Nolan. Ainda não consegui vê-lo uma segunda vez, como gostaria, mas comecei a
mergulhar ainda mais no universo das epopeias. Tenho procurado ler todas as que
existem ou de que há registo, e decidi começar por aquela que, para mim, tem um
significado muito especial: Os Lusíadas.
Já tinha lido a obra na escola, no 9.º ano, mas desta vez quis voltar a ela
com outra atenção. Até porque tive uma experiência que tornou esta releitura
ainda mais especial: fiquei cerca de uma hora na fila da Livraria Lello para
conseguir a minha versão de Os Lusíadas. Foi como se estivesse a
preparar-me para reencontrar uma obra que já conhecia, mas que agora queria
realmente descobrir.
E que orgulho senti ao voltar a lê-la!
Temos de ter orgulho porque esta é a nossa epopeia. Poucos países podem
dizer que possuem uma obra épica desta dimensão, capaz de contar a
grandiosidade e os feitos do seu povo. Se a Odisseia representa uma
parte fundamental da identidade cultural dos gregos, e a Eneida faz o
mesmo com os romanos, nós, portugueses, temos Os Lusíadas.
Camões começa por colocar os deuses do mundo greco-romano a discutir se os
portugueses conseguirão chegar à Índia por via marítima. É quase como se Vasco
da Gama fosse o nosso Ulisses: um homem que parte para o desconhecido, enfrenta
perigos, tentações, traições e obstáculos, mas continua a sua viagem.
E há uma verdadeira batalha entre os próprios deuses. Vénus está do lado
dos portugueses, enquanto Baco se opõe à sua chegada à Índia. No mundo dos
mortais, os portugueses também encontram perigos e são traídos por um
muçulmano, mas acabam por ser ajudados pelos deuses.
Depois chegam a um reino onde Vasco da Gama começa a contar a história
daquele valente povo lusitano. E é aí que a epopeia ganha ainda outra dimensão:
não estamos apenas a acompanhar uma viagem marítima. Estamos a ouvir a história
de Portugal, dos seus reis, dos seus heróis e dos feitos de um povo, até
regressarmos à viagem e à chegada dos portugueses à Índia.
É isso que me fez gostar tanto de voltar a ler Os Lusíadas. Não é
apenas uma história de aventuras. É uma obra que junta história, mitologia,
viagens, batalhas, coragem e a ideia de um povo que se lança para o
desconhecido. Enquanto lia, sentia que estava a descobrir melhor uma parte da
minha própria cultura.
Luís Vaz de Camões não escreveu simplesmente um livro. Escreveu uma
epopeia.
E uma epopeia da dimensão das grandes obras da Antiguidade, como as de
Homero e Virgílio, e que também me faz pensar em Dante e na Divina Comédia.
É uma obra que atravessou séculos e que continua a fazer-nos olhar para a nossa
própria história de uma maneira grandiosa.
Talvez seja precisamente isso que me emocionou tanto nesta releitura:
perceber que aquilo que aprendi na escola era apenas uma pequena porta de
entrada. Agora, lendo com mais atenção e com outra maturidade, consigo apreciar
muito mais a dimensão da obra e perceber porque é que Os Lusíadas é tão
importante para nós.
E fico a imaginar:
E se Christopher Nolan fizesse agora Os Lusíadas?
Que filme seria!
Imaginem o realismo da viagem marítima até à Índia, os navios, o oceano, as
tempestades e os perigos, misturados com a mitologia dos deuses. Imaginem Vasco
da Gama a encontrar Vénus, tal como Ulisses encontra Atena. Um filme em que a
realidade histórica e o mundo mitológico se cruzassem diante dos nossos olhos.
Acredito que poderia ser uma epopeia cinematográfica extraordinária.
Para mim, A Odisseia dá aos gregos uma sensação de orgulho pela sua
grande tradição épica. Os Lusíadas provoca em mim esse mesmo sentimento
enquanto português.
Por isso, digo-vos: leiam Os Lusíadas.
Leiam-no não apenas porque é uma obra que aprendemos na escola, mas porque
é a nossa grande epopeia. É uma parte da nossa história, da nossa cultura e da
nossa identidade.
Camões não contou apenas uma viagem até à Índia.
Camões contou Portugal.
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