Avançar para o conteúdo principal
“O Café que Ficou por Tomar” - Aviso quando estiverem a ler este texto ouçam a música On the nature of daylight do compositor Max Richter
Luís Miguel Rocha deixou de falar
comigo. De vez em quando, ainda escrevia algumas coisas no Facebook, quase
sempre a criticar o governo atual. Só isso. Farto de enviar mensagens sem
resposta, comecei a ligar. Ele desligava sempre. Uma vez aconteceu o mesmo com
o Sr. Carneiro e, pouco depois, soube que ele estava entre a vida e a morte.
Quando me lembrei disso, respondi-lhe de forma torta. Peço desculpa agora, do
fundo do coração. Na noite de 24 de março, o meu WhatsApp tocou. Era ele. A
mensagem dizia:
“Quando vier ao Porto, vamos
tomar um café. Prometo.”
No dia seguinte, pus o “Lacrimosa”
de Mozart a tocar na aparelhagem. Mal os primeiros acordes encheram o quarto, o
meu pai entrou e disse, com a voz embargada:
— O teu amigo escritor morreu hoje,
André. Corri para a televisão. No rodapé do telejornal da SIC Notícias, a
notícia passava em letras frias e brancas. Fiquei sem ar. Tentei falar com o
Hugo. Ele encontrou as palavras certas, mas eu não consegui. Passei o resto do
dia na cama, a pedir a Deus que me deixasse vê-lo mais uma vez, só para lhe
pedir desculpa. Nessa noite, sonhei que corria atrás dele. Luís Miguel ia com
pressa, como quem tinha um lugar importante para chegar. Por mais que eu
corresse, não conseguia alcançá-lo. Tropecei, caí no chão e, quando levantei os
olhos, ele já tinha desaparecido. Nunca mais o vi. Ainda hoje tenho saudades
dele. Saudades profundas de irmos tomar um café, de falarmos sobre literatura,
de eu gostar dos livros “Crepúsculo” e ele detestar aquele género com todo o
coração. De eu considerar “Memorial do Convento” o melhor livro de José
Saramago, enquanto o dele era “A Viagem do Elefante”.
— Que livro começo a ler do José
Saramago? — perguntei-lhe um dia. Ele respondeu com os olhos a brilhar de
entusiasmo:
— Eu gosto de todos. Mas se queres
começar, começa por “A Viagem do Elefante”. Como o livro estava esgotado na
FNAC, acabei por comprar “Memorial do Convento”. Quando ele soube, fez uma
careta divertida e disse, sorrindo:
— Eu preferia que começasses com “A
Viagem do Elefante”.
— Sabias que, na minha religião, o
budismo, o elefante significa sorte? É um sinal de que os Deuses, ou Deus, nos
querem dar uma boa notícia — contei-lhe, sorrindo. — Nas escrituras budistas
primitivas, diz-se que a Rainha Maya, antes de conceber Buda, sonhou que
dançava com um elefante branco.
— Elefante branco… Isso é bonito.
Não sabia — respondeu ele, com genuína curiosidade.
André Vilaça
Comentários
Enviar um comentário