De Umberto Eco à minha própria história

 

 

A história começa com o Irmão Bernardo.

Bernardo admira o Irmão Adso e decidiu segui-lo, embora, no início, pouco ou nada saiba sobre o homem que escolheu como mestre. Adso apareceu na sua vida quase como um mistério. Bernardo não conhece o seu passado, não sabe de onde veio nem tudo aquilo que viveu antes de os seus caminhos se cruzarem. Sabe apenas que encontrou naquele homem alguém que vale a pena seguir.

É durante uma ida à montanha, para meditar, que esse mistério começa a ser desvendado.

No silêncio da montanha, o Irmão Adso decide contar a Bernardo a sua história. É então que o leitor começa a conhecer o seu passado, as experiências que o marcaram e o caminho que percorreu até ao momento em que conheceu o jovem que viria a tornar-se seu companheiro.

Depois dessa primeira parte da história, os dois regressam novamente à montanha. E é aí que a narrativa continua, acompanhando Adso e Bernardo até ao final.

Esta estrutura foi uma das formas que encontrei para contar a história que tinha na cabeça: primeiro, vemos Adso através dos olhos de Bernardo, como alguém que guarda muitos segredos. Depois, pouco a pouco, esses segredos vão sendo revelados pelo próprio Adso.

Algumas das pessoas a quem pedi para ler o livro gostaram da história. Isso deixou-me naturalmente muito feliz, porque quando escrevemos uma história durante tanto tempo, nunca sabemos verdadeiramente como será recebida por quem está do outro lado.

Agora falta uma parte que está fora das minhas mãos: saber se as editoras também vão gostar.

Vamos lá ver.

Mas há uma coisa que gosto particularmente nesta história: os nomes das duas personagens principais não foram escolhidos ao acaso.

O nome Adso é uma homenagem a um dos meus escritores preferidos, Umberto Eco. Em O Nome da Rosa, Adso de Melk é o noviço que acompanha Guilherme de Baskerville, o franciscano que investiga os acontecimentos misteriosos no mosteiro.

Essa personagem ficou comigo. E, quando criei o meu Irmão Adso, quis prestar essa pequena homenagem a Umberto Eco e a um livro que admiro profundamente.

Já o nome Bernardo tem uma origem completamente diferente e muito mais familiar.

É uma homenagem ao santo da minha avó paterna.

Por isso, estes dois nomes representam duas partes diferentes daquilo que sou e das coisas que me inspiram: de um lado, a literatura e um escritor que admiro; do outro, a família, a memória e uma pessoa que faz parte da minha história.

Talvez o leitor passe por estes nomes sem pensar muito neles. Mas, para mim, cada um carrega uma história antes mesmo de a história do livro começar.

E talvez seja isso que torna a escrita tão especial: às vezes, aquilo que parece um simples nome pode esconder uma memória, uma homenagem ou uma pessoa que nunca deixou de caminhar connosco.


André Vilaça 





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