CANTO I A Assembleia dos Deuses - Armei-me em Homero ou virgilio ou Camões e escrevi um canto.

 

CANTO I

A Assembleia dos Deuses

 

Ó Ninfa Dóride, que nas águas claras
Do venerando Douro tens morada,
Tu que banhas suas margens e searas,
Onde a Lusitânia foi por ti beijada,
Dá-me engenho e voz para estas aras
Cantar a história agora começada;
Dá-me, de teu lírio de ouro, inspiração,
Para erguer esta epopeia em minha mão.

Que se abra agora o céu sobre o mundo,

E o Olimpo mostre o seu divino estado,
Onde os deuses, do alto mais profundo,
Contemplam o destino do povo amado;
E entre o mar, a serra e o chão fecundo,
Vê-se um reino pequeno e destemido,
Portugal, filho de antiga Lusitânia,
Que guarda em seu peito força tamanha.

 

No alto monte, onde o divino Olimpo
Se ergue acima das nuvens passageiras,
Reuniram-se os deuses nesse tempo,
Para julgar caminhos e derradeiras
Jornadas de mortais que, sem descampo,
Buscam a graça em terras estrangeiras.
E entre todos os povos que viam passar,

Dois peregrinos os fizeram meditar.

Voltaram os seus olhos para o Ocidente,
Para a Península de antigos guerreiros,
Onde vivia um povo resistente,
De homens ousados, bravos caminheiros;
Portugal, reino pequeno entre a gente,
Mas grande em fé, em sonhos e roteiros,
Filho das terras que Luso nomeara,
E que a História com sangue consagrara.

 

Dois jovens partem da terra lusitana
Com o bordão na mão e a alma acesa:
André e Zé, de coração e de cana,
Vão a Santiago cumprir a promessa.
Pelo Caminho de Compostela, a longa estrada,
Levam no peito a esperança e a dureza;
Não armados de lanças nem de espada,
Mas de fé que atravessa a natureza.

 

Então Atenas, deusa de olhar prudente,
Senhora da razão e da estratégia,
Falou aos deuses com voz firme e quente,
Mostrando por aqueles grande estima:
“Pequeno é o passo, mas não a sua gente,
Nem pequena é a coragem que os anima.
Vejo naqueles dois uma vontade
Que desafia a própria eternidade.”

 

Mas Ares, deus da guerra e do combate,
Que amava o clangor feroz da espada,
Soltou uma risada de quem sabe
Que o obstáculo vence sempre na jornada.
“Dois peregrinos? Contra o frio e a fome?
Contra as pedras, a chuva e o desespero?
Que podem eles contra tão grande peso,
Contra o cansaço e o medo verdadeiro?

Atenas, tua razão hoje se encerra;
Não há fé que vença o caminho inteiro
Quando diante dele se levantar
A dureza do mundo a castigar”

 

A deusa então olhou o deus guerreiro
E respondeu sem medo nem desdém:
“Não confundas coragem com o aço,
Nem força com aquilo que a espada tem.
Às vezes chega aquele que, no espaço
Da dor, ainda acredita e vem.
Não é o braço que faz grande o homem,
Mas aquilo que no peito dele existe.

 

Ares sorriu, tomando a aposta:
“Então veremos quem terá razão.
Eu aposto que não chegam à meta,
Tu apostas nos lusos desta nação.
Se André e Zé vencerem a jornada,
Admitirei perante a multidão
Que há força maior que a guerra e a espada;
Mas, se falharem, tua aposta estará acabada.”

 

Zeus, senhor dos céus e dos trovões,
Que escutava em silêncio aquela disputa,
Ergueu a voz acima das discussões
E fez calar a assembleia absoluta:
Basta de apostas, de orgulho e paixões.
Que o destino siga a sua própria rota.
Os homens terão de escolher o caminho;
Nem todo destino está pelos deuses escrito.

“Poderemos influenciar os seus passos,
Poderemos colocar-lhes provações,
Poderemos abrir ou fechar os espaços,
Despertar medos ou inspirações;
Mas não podemos quebrar os seus braços
Nem escolher por eles decisões.
O homem que chega ou cai na caminhada
É senhor da escolha que lhe foi dada.

 

Atenas baixou então o seu olhar
Para as terras distantes de Portugal.
Pensou nos dois que haveriam de lutar
Contra o cansaço, a chuva e o temporal,
E decidiu ajudá-los sem revelar
A mão divina por trás do seu destino.
Mas não podia descer como deusa,
Nem revelar aos homens sua presença.

 

Precisava de alguém que, sem grandeza,
Pudesse caminhar junto da defesa.
Então chamou Luso, o antigo fundador,
Aquele cujo nome a terra guardava,
O lendário pai e protetor
Da pátria que no Ocidente se levantava.

 

Luso apareceu perante Atenas,
Vestido ainda com a luz dos antigos dias.
“Que queres de mim, senhora dos deuses?”
Perguntou, perante a deusa que o chamara.
“Quero que desças ao mundo dos homens
E acompanhes aqueles que irão
Cumprir a promessa de fé e de peito
E levar Portugal no coração.”

 

Luso escutou em silêncio.
Sabia que a viagem seria perigosa.
Sabia também que não poderia revelar
Aos mortais quem realmente era.
Por isso respondeu:
“ Descerei.

Mas não como deus.”
“ Que seja como homem, então “disse Atenas.
“ Não.” respondeu Luso. “ Como homem, não.
Serei apenas aquilo que eles procuram
Quando mais ninguém estiver ao seu lado “

 

E assim, perante o Olimpo silencioso,
O antigo Luso preparou a sua partida.
Deixaria por algum tempo o reino divino
E pisaria novamente a terra dos mortais.
Não levaria coroa.
Não levaria espada divina.
Não levaria o nome que os homens veneravam.
Vestiria roupas simples,
tomaria a aparência de um jovem humilde
e tornar-se-ia apenas um companheiro de caminho.

Um pequeno companheiro entre peregrinos.
Um rosto que ninguém reconheceria.
Um nome que esconderia um passado inteiro.
Luso.

 

Enquanto Atenas contemplava Portugal,
Ares preparava já as suas artimanhas.
E muito abaixo do Olimpo,
sem saber ainda o que os deuses haviam decidido,
dois jovens preparavam o bordão e a mochila.
Chamavam-se André e Zé.
Ainda ninguém sabia se chegariam ao fim
da longa estrada de Compostela.





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