A Viagem que Vale Sempre a Pena
Há quem ache estranho fazer uma viagem de dois comboios apenas para passar umas horas na casa de um amigo. À primeira vista, parece um esforço exagerado. Mas quem olha apenas para a distância nunca compreenderá o verdadeiro motivo da viagem. Eu não vou à casa do Zé por causa da casa. Vou por causa do Zé. Os dois comboios, o tempo da viagem e o cansaço não são um peso. São apenas o caminho até um lugar onde me sinto bem. Quando chego à casa dele, sinto uma tranquilidade difícil de explicar. Não preciso de fingir que estou sempre bem, nem de medir as palavras para ser aceite. Posso simplesmente ser eu. Há pessoas que transmitem uma sensação de segurança sem precisarem de fazer nada de extraordinário. Basta estarem presentes. O Zé é uma dessas pessoas. A sua calma, a forma como me recebe e a amizade que construímos ao longo dos anos fazem-me sentir protegido, compreendido e aceite. É por isso que gosto tanto de ir à casa dele. Não é pelas paredes, pelo jardim ou pela cidade onde vive. Tudo isso é secundário. O que realmente me faz regressar é a certeza de que, quando atravesso aquele portão, estou a entrar num lugar onde nunca preciso de provar o meu valor. Muitas vezes diz-se que a casa é onde vivemos. Hoje acredito que a verdadeira casa é onde encontramos paz. Há pessoas que conseguem transformar um espaço comum num refúgio apenas pela maneira como nos fazem sentir. Talvez seja por isso que nunca me importei de apanhar dois comboios para o visitar. A viagem nunca foi um sacrifício. Pelo contrário, cada quilómetro percorrido aproxima-me de alguém que considero um irmão de coração. No fim de cada viagem percebo sempre a mesma coisa: eu não viajo para uma casa. Viajo para uma amizade. E, enquanto essa amizade existir, a distância será apenas um detalhe, porque há pessoas que conseguem fazer-nos sentir em casa simplesmente por estarem ao nosso lado.


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