A Ilíada: um clássico que merece ser lido
Quando fui comprar a Ilíada, de Homero, na tradução de Frederico Lourenço, perguntei à funcionária da livraria se tinham o livro. Para minha surpresa, ela já sabia exatamente qual era. Disse-me que, por causa do filme Odisseia, de Christopher Nolan, tanto a Ilíada como a Odisseia se tornaram dois dos livros mais procurados.
Eu já tinha a continuação, a Odisseia, que comprei juntamente com o Zé. Por isso, esse livro tem um significado especial para nós: é algo que partilhamos.
Na verdade, eu já tinha lido a Ilíada antes, numa tradução diferente que o Zé tem. Admito que o primeiro canto foi desafiante. Li, reli e, durante algum tempo, tive de avançar devagar. Mas, a partir do momento em que entrei na história, nunca mais consegui parar.
Muita gente pensa que a Ilíada conta toda a Guerra de Troia, mas não é bem assim.
A guerra começa quando Helena, considerada a mulher mais bela do mundo, é levada para Troia pelo príncipe Páris. Menelau, seu marido, sente-se traído e reúne os reis da Grécia para lançar uma expedição contra Troia e recuperar a esposa.
No entanto, a Ilíada não começa no início da guerra. Quando o poema se inicia, já passaram dez anos de combates.
Os gregos precisam desesperadamente do maior dos seus heróis, Aquiles, mas ele recusa-se a lutar por causa de um conflito com Agamémnon. Entretanto, Heitor, príncipe de Troia e o maior guerreiro troiano, mata Pátroclo, o grande amigo de Aquiles. Consumido pela dor e pela fúria, Aquiles regressa finalmente ao campo de batalha, derrota Heitor e arrasta o seu corpo como sinal de vingança.
É então que acontece um dos momentos mais emocionantes de toda a literatura. O rei Príamo, pai de Heitor, entra sozinho no acampamento inimigo para pedir a Aquiles o corpo do filho, para lhe poder dar um funeral digno. Leva também moedas para colocar junto do corpo, segundo a tradição grega, para pagar a travessia do barqueiro Caronte rumo ao mundo dos mortos.
Comovido pelas palavras e pela coragem daquele pai, Aquiles devolve-lhe o corpo. A Ilíada termina precisamente com o funeral de Heitor.
Muitos leitores perguntam então: "E o Cavalo de Troia? E a queda da cidade?"
A resposta é simples: isso não acontece na Ilíada.
Esses acontecimentos são contados na Odisseia, quando Ulisses relembra as suas aventuras e narra, perante o rei dos Feaces, os acontecimentos que levaram ao fim da Guerra de Troia.
Também eu fiquei cheio de perguntas quando terminei a Ilíada. Queria perguntar tudo ao Zé. Mas depois lembrei-me de que muitas dessas respostas já estavam na Odisseia, que eu já tinha lido.
Há também alguns mitos que vale a pena esclarecer.
Sim, Aquiles é um semideus. Mas a sua famosa fraqueza no calcanhar não aparece na Ilíada de Homero. No poema, Aquiles é atingido por uma seta, mas Homero nunca diz que foi no calcanhar. A história do "calcanhar de Aquiles" surgiu séculos mais tarde, através de autores romanos, tornando-se uma tradição posterior e não parte da obra original.
O filme Troia (2004) consegue recriar vários momentos importantes do poema e é relativamente fiel em muitos aspetos. No entanto, retira um elemento essencial: os deuses. Na Ilíada, eles intervêm constantemente na guerra e influenciam diretamente o destino dos heróis. Aliás, a Guerra de Troia não começa apenas por causa de Helena, mas também devido à rivalidade e ao ciúme entre várias deusas gregas.
Nos últimos tempos também tenho visto algumas críticas ao filme Odisseia, de Christopher Nolan. Há quem diga que Ulisses apenas imagina Atena porque viu morrer uma jovem com o rosto semelhante ao da deusa.
Na minha opinião, essa crítica não faz sentido. Na Odisseia, Atena acompanha e protege Ulisses durante praticamente toda a viagem. Surge repetidamente sob diferentes aparências, porque, segundo a tradição grega, os mortais não podiam contemplar um deus na sua verdadeira forma divina.
Por fim, fiz uma experiência curiosa. Perguntei à minha mãe e a alguns amigos se gostariam de ler primeiro a Ilíada e depois a Odisseia. A resposta foi quase sempre a mesma: recusaram, como se fossem livros difíceis ou aborrecidos.
Mas a verdade é exatamente o contrário.
Estes dois poemas são os grandes bestsellers do mundo antigo. Há cerca de três mil anos que continuam a ser lidos em todo o mundo. Têm ação, guerra, amizade, coragem, vingança, deuses, monstros, viagens, emoção e personagens inesquecíveis.
Se gostam de grandes histórias, talvez esteja na altura de lhes dar uma oportunidade.
Eu dei. E não me arrependi nem por um instante.



Comentários
Enviar um comentário