O Companheiro - um conto de robôs que escrevi depois de terminar o livro do ISAAC ASIMOV

 Era um café comum, daqueles que servem de refúgio diário a quem precisa de rotina. Xavier almoçava sozinho, como fazia havia anos. O estabelecimento vibrava com o movimento habitual: portas que se abriam e fechavam sem descanso, pratos que entravam e saíam da cozinha num ritmo quase mecânico, vozes que se misturavam no ar quente do meio-dia. Enquanto comia, o telemóvel vibrou sobre a mesa.  Ele olhou distraidamente, limpando as mãos. Os olhos arregalaram-se ao ler as primeiras palavras: “Xavier, desculpa dar-te esta mensagem assim.

Mas o Chico faleceu. Eu sei que…» Não leu o resto. Pousou o aparelho com cuidado, como se este fosse frágil, e continuou a refeição em silêncio. Por breves segundos, sentiu uma palmada familiar no ombro — o gesto característico de Chico quando chegava, por vezes atrasado. Sorriu por dentro. Um homem de sessenta e cinco anos a ver animes e a fazer palhaçadas como um miúdo. Quem diria. Terminou de comer, levantou-se e dirigiu-se à caixa. O dono do café, surpreendido, perguntou:

                — Não vai tomar o seu habitual café hoje?

            — Hoje não — respondeu Xavier, com uma urgência que não conseguia disfarçar.

              — Sente-se bem?

             — Sim, não se preocupe. Estou bem.

              Mentiu. Pagou, recebeu o troco e saiu para as ruas da cidade. Caminhou sem rumo, perdido num labirinto de memórias. De repente, viu-se novamente jovem. Dois rapazes frente a frente.

            — Como te chamas?
            — Xavier Alexandre Salvador Moniz.
           — Um nome muito grande. Vou chamar-te só Xavier — disse o miúdo com um sorriso aberto, estendendo a mão. — Eu sou Francisco, mas podes chamar-me Chico.

             A imagem dissolveu-se como névoa. Por um instante, Xavier viu o amigo à sua frente, sorrindo, antes de desaparecer. Sentiu novamente a palmada no ombro.

          — Chico, tens de deixar de fazer isso.
         — Como sabes que era eu?
        — Só tu me bates no ombro assim.

            O funeral foi a parte mais dura. Dois dias depois, quando a campainha tocou, Xavier abriu a porta e deparou-se com uma figura metálica e polida. Um robô da US Robots, a empresa que, desde o seu aparecimento, enchera o mundo de máquinas. A visão irritou-o profundamente, como a chegada da inteligência artificial décadas antes.

            — Olá. Eu sou Joe, modelo D2CD — disse o robô com voz serena e natural.

           — Nunca ouvi falar. O que queres de mim? Odeio robôs.

            — Posso entrar? Preciso de falar contigo.

          — Claro… entra.

           O robô entrou com passos silenciosos e precisos.

             — Fui enviado por Francisco Dante. Quando viu os primeiros D2CD, quis logo um. Montou-me ele próprio e ordenou-me que viesse ter contigo na hora certa.

             Xavier franziu o sobrolho.

         — Tu és diferente dos outros?

           — Conheces Doraemon, o gato cósmico?

          — Toda a gente conhece esse anime — rosnou Xavier.

           — Os D2CD foram inspirados nesse conceito. Comemos, dormimos, sentimos dor. O nosso propósito é ajudar quem precisa.

         — Eu não preciso de ajuda. Quem te disse que preciso?

            O robô recitou, com precisão inquietante:

           — Xavier Moniz, 1,76 m, 90 quilos, 65 anos. Casado, dois filhos já casados, netos. Vive triste, apesar de ter sido um homem alegre.

         — Quem te contou isso?

              — O Sr. Francisco. Só poderei partir quando o senhor for verdadeiramente feliz. São as minhas ordens.

            Xavier resmungou, mas algo no tom calmo da máquina o impediu de a expulsar imediatamente.

          — Não gosto do nome Joe. É demasiado americano. Vou chamar-te Zé… ou Joaquim. Quim Zé. Que achas?

           — O senhor decide.— Quim Zé serve. E tira o “senhor”. Chama-me Xavier.

             Os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses e os meses em anos. Quim Zé tornou-se parte da casa, depois da família. Partilhavam refeições — o robô tinha uma predileção curiosa por bolas de Berlim —, conversas longas e silêncios confortáveis. Pela primeira vez em muito tempo, Xavier ria novamente. Certa tarde, Quim Zé disse:

             — Xavier, sei que és feliz agora.

             — Não quero que te vás embora.

             — Não irei, se assim desejares.

             — Então vou tratar de ti. Peças novas chegaram da US Robots de Lisboa.

            Enquanto Xavier trabalhava nas entranhas do robô, um pequeno ecrã atrás da cabeça de Quim Zé ligou-se. Uma gravação. O coração de Xavier parou. Chico apareceu, mais velho, visivelmente doente, falando diretamente para a câmara:

            — Eu estou doente. Sei que vou morrer. Joe, toma conta do meu amigo Xavier. Ele é cabeça-dura, mas é um dos melhores homens que conheci. Depois do meu funeral, vai até ele e faz esse filho da mãe feliz. Como se desliga isto…?

           A imagem apagou-se. Xavier ficou petrificado, com lágrimas a correrem pelo rosto envelhecido. Limpou-as com a manga, encaixou as peças com mãos trémulas e ligou o robô novamente. Quando Quim Zé despertou, Xavier abraçou-o com força, como se abraçasse o próprio Chico. Em silêncio, compreendeu que a amizade verdadeira transcende a carne, o metal e o tempo. E que, por vezes, os melhores companheiros chegam sob a forma mais inesperada — enviados por quem nos conheceu melhor do que ninguém.

Fim.


                                    

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