Lágrimas nas Primeiras Páginas: O Poder de “Hamnet” de Maggie O’Farrell

 

Comecei “Hamnet” ontem à tarde e, desde então, o mundo parou. Mal largo o livro. As páginas parecem puxar-me para dentro de uma casa em Stratford-upon-Avon no século XVI, onde o ar cheira a ervas, pão quente e ao peso invisível de uma peste que se aproxima.Maggie O’Farrell tem um dom raro: consegue tocar directamente no coração sem aviso. Logo no início, acompanhamos a pequena Judith, a filha de William Shakespeare e de Agnes, e a forma como a autora descreve a sua fragilidade e a inquietação da mãe deixou-me com um nó na garganta. Judith é gémea de Hamnet, e saber o que a história reserva (tanto para ela como para o irmão) torna cada cena ainda mais dolorosa. Virei uma página e dei por mim a murmurar, com a voz embargada: “Caramba, eu estou a chorar!”As lágrimas surgiam sem pedir licença. Sentia o peito apertado, como se estivesse ali, naquela casa modesta, a testemunhar o terror silencioso dos pais perante a doença que chegava. O luto descrito é tão cru, tão humano, que me fez pensar em quantas mães e pais, ao longo dos séculos, passaram pelo mesmo inferno durante a Peste Negra. Como se aguenta a perda de um filho? Como se continua a respirar quando o maior medo se torna realidade?Ainda não terminei o livro. Tenho quase medo de continuar, porque sei que o sofrimento de Agnes e de William vai aprofundar-se. Dói-me o coração por eles, mesmo sabendo que se trata de ficção. Mas o livro lembra-nos logo no início que se baseia numa verdade profunda: a morte prematura de Hamnet Shakespeare, o filho do dramaturgo, e o facto de esse luto avassalador ter dado origem, anos mais tarde, a “Hamlet”, uma das maiores obras da literatura mundial.Nunca chorei tanto com um livro logo nas primeiras páginas. (Bem, minto… já chorei com outros relatos sobre a Peste, mas este toca-me de forma diferente, mais íntima.) O talento de O’Farrell está em tornar o passado tão vivo que parece presente: ouve-se o crepitar do fogo, sente-se o cheiro da lama nas ruas, o peso do silêncio quando a criança adoece.Se ainda não leste “Hamnet”, prepara os lenços. E prepara-te também para não conseguir parar. Eu continuo aqui, páginas molhadas e coração apertado, ansioso e ao mesmo tempo receoso pelo que vem a seguir.Quando terminar, volto para vos contar como me senti no final. Por agora, só sei que já estou destroçado… e ainda mal comecei.

Um abraço emocionado,
André Vilaça





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