«Eu, Tobi» outro contos de robos que escrevi estilo ASAAC ASIMOV
Ricardo, outrora agente secreto
em missões que poucos ousariam recordar, encontrara agora uma existência mais
prosaica: protegia famosos das sombras que os seguiam. O destino colocara-o ao
lado de Hélder Coelho, o cantor português cuja voz e melodias do álbum Gato
Preto ecoavam pelos estádios do mundo, atraindo não apenas compatriotas, mas
multidões de estrangeiros fascinados. Naquela noite fria em Gotemburgo, o
Estádio Ullevi pulsava com milhares de vozes. As luzes cortavam a escuridão
como lâminas, e o ar vibrava com a energia do concerto. De súbito, o caos
irrompeu — um ataque rápido, gritos, movimento desordenado. Ricardo precipitou-se
para proteger Hélder, abrindo caminho pela multidão em pânico. Ao chegar junto
da figura caída no chão, não viu sangue, apenas um corpo que se contorcia de dor.
Então ouviu a voz, inconfundível:
— Não sou eu. É um robô que a
Suécia decidiu usar para me proteger.
Ricardo fitou-o, atónito.
— Mas ele é igual a ti?
— A U.S. Robotics de Estocolmo
construiu-o à minha imagem. Perfeitamente.
— Eu sei dos robôs, mas isto... é
impossível.
Hélder, ainda no chão, fez um gesto
de dor e pediu que Ricardo abrisse a boca da figura. Ao fazê-lo, um painel
oculto deslizou com um clique suave. A face mecânica abriu-se, revelando
circuitos, servomotores e o brilho frio de olhos artificiais. Ricardo recuou instintivamente.
A polícia e os técnicos chegaram rapidamente. Levaram o robô danificado
enquanto Hélder era conduzido em segurança.
— Porque usas um robô? — perguntou
Ricardo mais tarde.
— Todos os cantores usam agora.
Luke Combs, Eric Clapton, até Rui Veloso. O mundo é perigoso.
— Estás a ser ameaçado?
— Nunca se sabe ao certo. Quero falar
com o Tobi.
— Tobi é o robô?
— Sim.
Na sala protegida, Tobi aguardava.
Conhecia as Três Leis da Robótica — e uma quarta, mais subtil, nascida da
afeição. Defendera Hélder não apenas pela Primeira Lei, que proíbe causar mal a
um ser humano, mas porque, de algum modo inexplicável, ligara-se ao cantor. A
porta abriu-se. Ricardo entrou, seguido de Hélder. O robô ergueu a cabeça e a
sua voz soou com genuína alegria:
— Hélder!
— Como estás, amigo? — perguntou o
cantor, aproximando-se.
— Sobrevivo. A bala não foi nada.
Voltaria a fazê-lo mil vezes para te proteger.
— Eu farei tudo para te ter ao meu
lado, Tobi. Prometo.
— Temos de ir, Sr. Hélder —
interrompeu Ricardo.
Mas foi Tobi quem respondeu, com
calma robótica:
— Ele não pode ir. Temos de ir.
Antes que Ricardo pudesse questionar,
um intruso armado irrompeu noutro corredor. Era um fã obcecado, um homem que
lera num livro obscuro que devia matar o ídolo para o “libertar”. Entrou numa
sala e disparou contra a figura que julgava ser Hélder. Nada aconteceu ao alvo.
Ao perceber que enfrentava Tobi, o assassino tentou fugir. O robô, fiel às
Leis, interveio. Deu a vida — ou o que os humanos chamam vida — pelo homem a
quem se afeiçoara. A polícia sueca entrou e recuou perante a cena. Hélder,
porém, nunca esqueceu. Apesar dos avisos da U.S. Robotics contra laços
emocionais excessivos, a amizade floresceu. Pescavam juntos em rios tranquilos,
caminhavam pelos campos dourados de Bragança, conversando sobre música,
humanidade e o estranho lugar que os robôs ocupavam entre ambos. Eram inseparáveis.
O concerto terminou. Ricardo acompanhou Hélder até aos fãs que aguardavam,
depois conduziu-o a um local seguro. O tempo passou.Certa noite, no camarim
silencioso após outro espetáculo, Hélder Coelho entrou sozinho, exausto mas
satisfeito. Sorriu ao ouvir o som familiar da porta a abrir-se atrás de si.
— Finalmente, Ricardo, eu...
Virou-se e parou. Ali, de pé,
intacto, com o mesmo sorriso sereno e os olhos que pareciam demasiado humanos,
estava Tobi.
— Olá, Hélder — disse o robô
suavemente. — Prometi que estaria sempre ao teu lado.
André Vilaça



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