“Primeiro vislumbre: o capítulo que mudou tudo”
Primas
O sol mal despontara no céu de Assis, tímido nas horas da Prima, quando
a carrinha parou e eu encostei o rosto à janela, os olhos a beberem a cidade
que se revelava como um quadro vivo. As ruas de pedra polida serpenteavam entre
casas que pareciam sussurrar histórias de séculos, e o meu coração batia
descompassado, inflamado de entusiasmo.
Ao meu lado, o mestre Adso resplandecia, os olhos a brilhar com uma
saudade que parecia impregnar o ar. Pegámos nas nossas mochilas, humildes como
convém a peregrinos, e descemos, os pés a tocarem o solo sagrado de Assis após
uma longa viagem — um voo até Roma, depois a camioneta que nos trouxera até
ali, a nova Jerusalém do Ocidente, como o mestre lhe chamara com reverência.
Caminhávamos pelas ruas, o som de alaúdes e vozes medievais a encher o
ar, entoados por artistas de rua que pareciam saídos de outro tempo. Lembrei-me
da nossa peregrinação a Santiago de Compostela, meses antes: os pés exaustos a
subir as escadas do mosteiro, o coração leve com a promessa cumprida, o
silêncio partilhado com outros peregrinos como um selo de comunhão. Mas Assis
era diferente, como se cada pedra respirasse uma santidade palpável.
À
nossa frente, ergueu-se a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos e o mosteiro,
sentinelas de pedra contra o céu azul. O mestre apressou o passo, um sorriso
aberto a iluminar-lhe o rosto.
—
Antonio, voltei! — exclamou em italiano, a voz vibrante de uma alegria quase
juvenil, ao aproximar-se da bilheteira.
O frade atrás do balcão, de pele marcada pelo sol, ergueu os olhos,
hesitante.
— A próxima visita é às dez… a primeira já começou…
Mas deteve-se. O rosto iluminou-se por um lampejo de reconhecimento. Num
salto, abandonou o posto e correu para abraçar o mestre.
—
Bem-vindo, mestre Adso, que saudades! — exclamou, a voz embargada.
Adso riu, voltando-se para mim com um brilho de orgulho.
—
Apresento-te o meu noviço, Carlos.
Antonio inclinou a cabeça, curioso, a estudar-me.
—
É o nome dele de baptismo ou de franciscano? — perguntou em italiano, com um
leve sorriso.
—
De baptismo — respondi em português, um pouco envergonhado sob o seu olhar.
—
Vão ao mosteiro — disse Antonio, já de regresso ao balcão. — Todos vão ficar
contentes por vos ver. Entrem sem demoras.
Pediu desculpa aos visitantes seguintes na fila, e nós seguimos,
atravessando o portão com o coração aos saltos.
O mosteiro abriu-se diante de mim como um mundo à parte. Cada passo
ecoava no chão de pedra, e o peso do momento — saber que ali poderia ser a
minha casa, talvez por anos — fazia o sangue pulsar nas veias. Nos corredores,
noviços interromperam as conversas, os olhos arregalados ao reconhecerem o
mestre Adso.
Mas uma voz rouca cortou o ar:
— O
que é tanto barulho?
Um frade idoso, de rosto sulcado e olhos penetrantes, surgiu, franzindo
o sobrolho. Ao ver Adso, porém, o semblante transformou-se, as lágrimas a
aflorarem.
—
Não ligues, meu amigo — disse, a voz a tremer — são lágrimas de um velho que
não morrerá sem aprender contigo.
O
mestre sorriu, humilde.
—
Que coisas dizes, mestre Francesco.
O
idoso virou-se para mim, as sobrancelhas erguidas.
— E
quem é este jovem?
— O
meu noviço! — respondeu Adso, o peito inchado de orgulho.
Francesco assentiu, avaliando-me com um olhar que
parecia ver para além da carne.
—
Vejo que ainda não mudaste o teu nome. Tens de o fazer. Escolhe o que mais
gostares, porque será teu para toda a vida.
As palavras de Francesco caíram sobre mim como uma pedra. Gostava do meu
nome, Carlos — simples, meu desde o baptismo. Mas qual seria o certo para um
frade?
Deus, ajuda-me a escolher um bom nome para esta vida, rezei em silêncio,
o pensamento a girar enquanto seguíamos o velho frade.
—
Bem, Adso e noviço, vamos rezar, já são as Terça — disse Francesco.
O
mestre acenou-me.
—
Sim, mestre Francesco. Anda, Carlos.
—
Sim, mestre — respondi.
E
mergulhámos nos corredores do mosteiro. As passagens de pedra fria, polidas
pelo tempo, ecoavam os nossos passos, misturando-se com o murmúrio distante das
orações. Era um mundo antigo e vivo, onde me sentia pequeno e imenso ao mesmo
tempo.
Caminhava ao lado do mestre Adso, rumo a um futuro que ainda não sabia
nomear, mas que já sentia pulsar no peito — como uma chama que Assis acendera
em mim.


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