Um café, uma terça-feira e o Carlos Tê
Era
uma terça-feira de manhã, de 2007 num café de praia nas praias da Madalena. Tínhamos
ido em grupo, daqueles dias calmos em que o tempo parece andar mais devagar. Eu
estava sentado com o Herculano, o meu técnico, a beber o café, sem imaginar que
aquele momento banal ia ficar guardado para sempre na minha memória.
De
repente, ele entrou.
Olhei
melhor. Voltei a olhar. Não podia ser… mas era. O Carlos Tê estava ali, no
mesmo café onde eu estava. O Carlos Tê, o homem das palavras, das letras que
fazem parte da vida de tanta gente. Fiquei parado, a olhar, quase sem
acreditar.
O
Herculano percebeu logo o meu estado. Mandou-me ir falar com ele. Eu queria,
mas não consegui. Faltou-me a coragem, a voz, tudo. Então o Herculano foi
comigo. Falámos com o Carlos Tê. Ele ouviu tudo com atenção, com calma, sem
pressa nenhuma, como se não fosse quem era.
No
fim, pediu papel e caneta.
E foi
aí que percebi que não tinha nada. Nem papel, nem caneta. Nada. Por um instante
achei que aquele momento ia ficar só na memória. Mas o Carlos Tê levantou-se,
foi até ao balcão, comprou um postal que estava à venda no café, sentou-se
outra vez e assinou.
Entregou-me
o postal.
Eu
fiquei a olhar para o autógrafo, meio incrédulo, meio feliz, como quem segura
uma coisa frágil e preciosa ao mesmo tempo. Não era só uma assinatura — era a
prova de que aquele encontro tinha mesmo acontecido.
Nunca
contei este episódio ao Rui Veloso. Mas sim, eu conheci o Carlos Tê.
E foi numa terça-feira de manhã, num café de praia, como se as melhores
histórias gostassem de acontecer assim, sem aviso.
André Vilaça


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