“Um Big Mac, Três Amigos e um Dia que Ficou”
Num dia frio, mas luminoso, de fevereiro — daqueles em que o sol brilha com coragem, tentando aquecer não apenas a pele, mas a própria alma — decidimos fazer algo simples, mas profundamente necessário. Eu e o Zé íamos visitar o nosso amigo Hugo.
O ar estava cortante, quase a morder o rosto, mas
havia uma claridade serena no céu. Era como se o mundo dissesse: “Ainda há
calor, mesmo quando parece que tudo arrefece.” E era exatamente isso que o Hugo
precisava — calor. Não apenas físico, mas humano.
Ele tinha acabado de sair do hospital.
São Paio de Oleiros esperava-nos silenciosa, com
aquele ar tranquilo de vila que conhece as dores e as alegrias dos seus. Antes,
porém, fizemos uma paragem obrigatória — quase ritualística. Passámos pelo
McDonald’s. O Hugo, ainda no hospital, tinha falado com aquele brilho infantil
nos olhos sobre a vontade de comer um Big Mac. Não era apenas fome. Era desejo
de normalidade. De voltar ao mundo das coisas simples.
Então decidimos: três Big Macs.
Três. Um para cada um. Porque certas refeições não
se comem — partilham-se.
Quando chegámos, o Hugo recebeu-nos com um
sorriso que misturava cansaço e alegria genuína. Estava mais magro, mais pálido
talvez, mas era ele. O mesmo olhar. A mesma presença.
— Já me viste, contente? — disse ele,
sentado no sofá, com a voz ainda frágil, mas carregada de ironia leve.
E naquele instante percebemos: ele estava
ali. Verdadeiramente ali.
Fomos para a cozinha. A mesa simples
tornou-se palco de algo maior do que um almoço improvisado. O som do papel a
ser aberto, o cheiro inconfundível do molho, o primeiro trincar no pão macio —
tudo parecia ter um significado diferente. Não era só um hambúrguer. Era um
símbolo.
O Zé falava, o Hugo ria, e eu… eu estava
calado como nos velhos tempos. Não por ausência, mas por presença. Às vezes,
estar é suficiente.
falamos das histórias do hospital, das
enfermeiras, das manias médicas. Depois saltávamos para as memórias antigas —
as parvoíces de sempre, as gargalhadas que só fazem sentido para quem as viveu.
O sol entrava pela janela e pousava nas pedras do chão do quintal quando
decidimos ir lá para fora.
E ali ficámos.
Conversámos sobre tudo e sobre nada. Sobre
a fragilidade do corpo e a força da amizade. Sobre o medo que não se diz, mas
que se sente. Sobre o futuro, como se fosse garantido — porque naquele momento,
queríamos acreditar que era.
O tempo passou sem pedir licença. Como
sempre acontece quando estamos onde devemos estar.
Mas o dia começou a baixar. A luz dourada
foi ficando mais tímida. E então o Zé, com aquele pragmatismo que equilibra as
emoções, disse:
— André, temos de ir embora. Tenho muito
caminho para Aveiro e Oliveira do Bairro.
Eu não queria ir.
Havia algo dentro de mim que dizia que
ficar era mais importante do que qualquer quilómetro. Queria prolongar aquele
instante, como se a simples presença pudesse proteger o Hugo de tudo o que
ainda estava por vir.
Mas ele, com uma serenidade inesperada,
disse para irmos.
Que iríamos falando.
Que um dia estaríamos juntos outra vez.
Que não era o fim do mundo.
E não era. Mas cada despedida carrega
sempre um peso invisível.
A viagem até minha casa foi silenciosa em
certos momentos. Não um silêncio desconfortável — mas reflexivo. Como se
estivéssemos ambos a processar a importância daquele dia.
Quando chegámos, antes do Zé seguir
caminho, tive uma ideia simples.
— Vamos tirar uma foto.
Nada preparado. Nada ensaiado. Apenas dois
amigos dentro de um carro, no final de um dia comum que, na verdade, não tinha
sido nada comum.
E foi ali que saiu a foto.
O Hugo lá em casa, a descansar. E nós os
dois, a guardar aquele momento numa imagem. Dois dedos em sinal de vitória.
Sorrisos verdadeiros. Olhos ainda húmidos de emoção que não precisava ser
verbalizada.
Aquela fotografia não é apenas uma selfie
no carro.
É um marco.
É a prova de que as visitas mais simples —
um Big Mac partilhado, uma tarde no quintal, gargalhadas ao sol de inverno —
podem carregar um significado imenso.
É a prova de que, às vezes, estar presente
é o maior gesto de amor.
Que não são necessárias grandes
declarações.
Basta dizer, com um olhar ou um gesto:
“Estamos aqui.”
E mais do que isso:
“Vamos continuar a estar.”
E assim ficou registado aquele 18 de
fevereiro.
Um dia frio, mas solarengo.
Um amigo de volta a casa.
Dois outros a reafirmarem, sem discursos
nem promessas solenes, que a amizade verdadeira não se mede em palavras —
mede-se em presença.
E naquela fotografia, congelada no tempo,
há algo que nenhuma imagem consegue capturar por completo:
A certeza tranquila de que, aconteça o que
acontecer, continuaremos a ser os mesmos de sempre.
Juntos.



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