O Objeto Sobre o Douro
Minha
querida Connie,
Há memórias que não envelhecem.
Permanecem suspensas no tempo, tal como aquele objeto
que apareceu um dia sobre o rio Douro, na Ribeira, silencioso e imóvel, como se
o próprio céu tivesse decidido observar-nos.
Ninguém sabia o que era.
Ninguém ousava nomeá-lo.
Pairava
ali, desafiando a gravidade e a razão, refletindo a luz cinzenta de um mundo já
cansado pelo medo. Estávamos no tempo do Covid-19, quando o simples ato de
respirar perto de outro ser humano parecia uma ameaça. E, ainda assim, aquela
coisa no céu conseguiu provocar um medo maior do que o vírus invisível.
Recordas-te, minha filha?
O Presidente Marcelo Rebelo de
Sousa apareceu na televisão com um rosto mais sério do que nunca. Pediu às
pessoas que se afastassem da Ribeira, que não se aproximassem, que não tirassem fotografias, nem sequer
uma selfie — ironia cruel, vinda justamente dele. Uma imagem não valia a vida.
As ruas encheram-se de vozes confusas, de passos apressados, de rumores.
O Primeiro-Ministro, António Costa, declarou recolher obrigatório. Disse que
era pela nossa segurança. Disse-o com a mesma voz com que já nos tinha pedido
para ficar em casa semanas antes. Mas desta vez… havia algo diferente no ar.
Algo que não vinha da Terra.
A NASA foi chamada. Cientistas, militares, linguistas, homens e mulheres
que acreditavam que tudo podia ser explicado — desde que houvesse dados
suficientes. O objeto continuava ali, imóvel, como se estivesse à espera.
Foi então que me chamaram.
Eu, Zenão Ludovico.
Professor de Linguística na
Universidade do Porto.
Um homem que passara a vida a
estudar palavras, sons, significados. Que escrevera livros sobre a nossa língua
e gravara vídeos a explicar aquilo que julgávamos dominar… mas que, no fundo,
nunca compreendemos por completo: a comunicação.
Nos corredores da universidade,
alguém fez uma piada:
— “Normalmente eles aterravam
nos Estados Unidos.”
Ri-me. Contei-a aos homens da NASA.
Ninguém sorriu.
O ambiente era pesado, denso, como se o ar tivesse ganho peso. Não havia
espaço para humor quando o desconhecido nos observava de cima.
Fiquei sozinho diante do objeto.
Horas. Dias.
A observar símbolos que surgiam
e desapareciam na sua superfície, um alfabeto impossível, curvas e ângulos que
não pertenciam a língua alguma da Terra.
Até que, lentamente, comecei a compreender.
Não foi um momento súbito, mas uma rendição gradual. Juntei padrões,
associei repetições, deixei que a lógica e a intuição dançassem juntas. Quando
finalmente respondi… o objeto abriu-se.
Entrei.
Ou talvez tenha sido engolido.
Lá dentro, não caminhava — sobrevoava.
Não havia chão, nem teto. Apenas espaços que se dobravam sobre si mesmos. Vi o
passado, o presente e o futuro como quem observa fotografias espalhadas pelo
chão. Compreendi então que o tempo não era uma linha, mas um oceano.
Eles chamam-lhes “astronautas antigos”.
Mas a verdade, Connie, é mais
perturbadora.
Eram
nós.
Humanos do futuro.
Fiquei um ano naquela nave. Aprendi a sua língua — uma fusão de todas as
que existiram. Aprendi a sua cultura, a sua história, o erro que quase os
extinguiu e a decisão desesperada que os trouxe de volta.
Para nós, cá fora, passara apenas um dia.
Vieram trazer a cura.
Vieram salvar-nos do Covid-19
antes que o mundo se partisse de vez.
Quando contei a verdade, ninguém acreditou. Alguns quiseram guerra.
Outros quiseram capturá-los. Tiveram medo do espelho que o futuro lhes
mostrava.
Fui preso.
Fui libertado.
Fui chamado de louco… e de
profeta.
Levei provas à ONU. Levei o passado e o futuro à mesma mesa. E, por um
breve e precioso instante, a humanidade escolheu
a paz.
A pandemia terminou. O mundo mudou. As fronteiras tornaram-se menos
sólidas do que as palavras. O objeto desapareceu como surgira — sem despedidas.
Voltei a dar aulas.
Mas já não ensinava apenas
Linguística.
Ensinava a língua do futuro — aquela que nasceu quando
o mundo finalmente se uniu.
Assim foi o que aconteceu, minha querida Connie.
Se algum dia duvidares desta história, olha para o rio Douro ao
entardecer.
Há mistérios que não
desapareceram. Apenas aprenderam a esperar.
Do
teu pai,
que te ama além do tempo,
Zenão Ludovico



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