Não Foi Desta Vez
Não, desta vez a ansiedade não me atacou por
causa da viagem à Suíça. Porque agora eu sei que vou. Está decidido, está
marcado, está certo. E quando eu sei que algo vai mesmo acontecer, a minha
cabeça descansa… ou pelo menos tenta.
Mas a ansiedade é engenhosa. Muito engenhosa.
E, como sempre, arranjou outra maneira de aparecer.
Tudo começou com dois livros.
Enviei dois livros para dois amigos antes do
Natal. Dois livros simples, cheios de intenção, que nunca chegaram ao destino.
Desapareceram. Sumiram-se no mistério dos correios. Acho que nem o detetive
Hercule Poirot conseguiria investigar este caso. Perderam-se por aí, algures
entre um código postal e outro.
Para um dos meus amigos, tive de enviar outro
exemplar. Felizmente, esse chegou às mãos certas. Para evitar que a história se
repetisse, a minha mãe começou a registar os envios. Assim podíamos acompanhar
o percurso e saber onde andavam as encomendas. E, como que por magia (ou
organização), começaram a chegar aos destinatários.
Até que, num desses envios… a ansiedade
decidiu entrar em cena.
Comprei um presente para o Zé. Ele disse
que não era preciso. A minha mãe disse que era. E eu, no meio disto tudo,
acabei por comprar. Caso estejam curiosos: era uma t-shirt igual à minha, dos
Incríveis da Disney e Pixar. Porque às vezes é bonito partilhar aquilo que
gostamos.
Fui aos correios, enviei registado e
esperei.
Normalmente demora. Mas desta vez chegou
dias antes do aniversário dele. Só que havia um pequeno detalhe: ele não estava
em casa. A encomenda foi parar aos CTT de Oliveira do Bairro.
E foi aí que a ansiedade, essa tinhosa,
começou a criar cenários. Comecei a imaginar o presente perdido, esquecido,
devolvido. Comecei a pensar se devia mandar mensagem ao Zé para ir aos
correios. No site dos CTT dizia que, se não fosse levantado, voltava para trás.
A minha cabeça não parava.
Hoje peguei no papel com o código de
registo e deitei-o fora. Assim não via. Assim não confirmava. Assim não
chateava o pobre do Zé.
Mas a ansiedade… essa já tinha decorado
os códigos.
E lá fui eu ver.
Para infelicidade dela e felicidade
minha: ele tinha levantado a encomenda.
Eu odeio ter ansiedade.
Enjoos do nada. Comichão do nada. Suar
do nada. Dor de barriga. Uma avalanche de sintomas sem aviso prévio. Odeio ter
ansiedade porque sinto que chateio quem me rodeia. Porque parece que perco o
controlo. Porque, muitas vezes, sei que estou a exagerar — mas não consigo
desligar.
Eu sei que existem exercícios. Resultam…
mas por pouco tempo. Meditação budista quando não está ninguém em casa (porque
senão riem-se de mim). O comprimido, quando a ansiedade se torna demasiado
chata para ignorar.
E agora que esta história terminou,
pergunto-me: qual será a próxima que ela vai inventar para me chatear?
Só a mim… que além de autista, também
sou ansioso.
Mas continuo aqui. A escrever. A viver.
A enviar presentes.
E, às vezes, a ganhar à ansiedade —
mesmo que seja por pouco.
André Vilaça



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