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Assim termino o prefácio e o meu livro "Meu amigo Yoshi" - Uma epopeia Franciscana

                                                                          Prólogo

Terças

            Estava diante do computador, a tecer as minhas memórias como se fossem uma epopeia grega. Tudo começara quando cheguei à Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, ainda como Carlos, ao lado do meu mestre Adso. Mais tarde, registara as histórias que ele me confiara: a vida dividida entre o Japão e Portugal; os tempos em que, na universidade, foi o único a inverter o jogo contra quem tentava praxá-lo; os dias sombrios da pandemia; a transformação inesperada em monge franciscano. Até ao momento em que os nossos caminhos se cruzaram e eu, feito aprendiz, o segui para a vida monástica em Assis — até hoje.
           — Posso entrar? — perguntou Sérgio, o meu velho amigo.
         Com a minha permissão, entrou e, sorrindo, insistiu:
         — Ainda nesse livro? Quando o acabas?
          — Está quase pronto. Creio que o próprio Homero ficaria orgulhoso da minha epopeia — respondi, esboçando um sorriso.
        — Onde quer que esteja, deve estar a aplaudir-te. Mas diz-me… tens deuses pagãos nessa epopeia?
          — Não. Só o Deus que transformou, num momento decisivo, a minha vida e a do mestre Adso.
         Sérgio acenou, compenetrado.
          — Gosto disso. Mas vim por outra razão: todos querem ouvir-te. Desde que o Papa declarou o mestre Adso um dos santos do novo milénio, não há quem não aguarde pelas tuas palavras.
          — O que poderei eu dizer que já não tenha dito nas missas? Aprendi com São Adso, sim… mas ele nunca quis ser chamado santo.
          — É estranho — murmurou Sérgio.
         — Estranho porquê?
         — Chamar-lhe São Adso. Para mim será sempre o mestre Adso. Conheci o homem antes da auréola.
            Assenti em silêncio.
           — Então, posso anunciar que vais falar?
         — Claro. Não tenho escapatória — confessei, suspirando.
           Sérgio levantou-se.
         — Vou andando. O meu aprendiz espera-me à entrada.
         — Vai em paz.
         Fechei a porta com suavidade, como quem protege o silêncio dos claustros. Voltei ao pequeno escritório na Casa do Capítulo. A luz de Novembro entrava tímida pela janela ogival e pousava, fria, sobre as páginas quase concluídas.
        Coloquei os dedos no teclado. As palavras não vinham. Em vez delas, surgiam imagens: o mestre ainda de jeans e camisola cinzenta, a rir-se dos caloiros que tentavam dobrá-lo na praxe; o mesmo homem, anos depois, de hábito castanho e sandálias gastas, a ensinar-me a fazer o nó do cordão franciscano com a mesma paciência com que explicava equações diferenciais; e, por fim, a fotografia que correu o mundo — ele, de joelhos na Praça de São Pedro, enquanto o Papa lhe impunha as mãos e o declarava «São Adso dos Anjos, testemunha da alegria no meio da tempestade».
           Suspirei. Como narrar alguém que sempre recusara ser narrado?
          Ouvi passos no corredor. Três toques discretos.
            — Entre.
          Era o Frei Tomás, o mais novo da comunidade.
       — Irmão José, estão todos na sala do capítulo. O Sérgio já anunciou… dizem que é hoje que fala.
         Sorri-lhe com ternura.
       — Diz-lhes que já vou. Só mais um minuto.
         Ele hesitou.
        — Posso perguntar uma coisa?
        — Claro.
        — O São Adso… quer dizer, o mestre Adso… ficaria zangado com isto tudo? Os cartazes, as velas, as multidões?
       Pousei-lhe a mão no ombro.
       — Zangado, não. Talvez triste. Ele dizia que os verdadeiros santos são aqueles de quem ninguém se lembra do nome, apenas do gesto.
         Quando entrei na sala do capítulo, o burburinho cessou. Havia frades, freiras, peregrinos e até jornalistas. Ofereceram-me uma cadeira simples de madeira no centro. Sentei-me. Respirei fundo.
         E comecei, sem notas, como ele me ensinara:
         — Irmãos e irmãs, não vim falar-vos de São Adso. Vim falar-vos do homem que, numa tarde de Março de 2020, fechou o computador após uma aula online, olhou para o crucifixo e disse: “Se é para ter medo, que seja de Ti, não do vírus.” Vim falar-vos do homem que bateu à porta deste convento com uma mochila às costas e um sorriso envergonhado: “Tenho quarenta e dois anos, uma cátedra de matemática e zero jeito para rezar as Laudes. Ainda assim, posso tentar?” Vim falar-vos do homem que abandonou tudo porque descobriu que a equação mais bela não estava nos seus artigos científicos, mas na bem-aventurança que diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” Queria, pela primeira vez, ser pobre de certezas.
Olhei em volta. Havia lágrimas.
E até ao último dia recusou o título de santo. Quando o Papa lhe telefonou para anunciar a beatificação, respondeu a rir: “Santidade, enganou-se no número. Aqui só mora um pecador que aprendeu tarde demais a amar.”
O silêncio era denso.
Se hoje acendem velas a São Adso, façam-no sabendo que ele preferiria que as acendessem ao irmão que está ao vosso lado. Aquele cujo nome ninguém sabe. Aquele que falha. Aquele que ainda não percebeu que Deus não escolhe os capazes, mas capacita os escolhidos. E se escreverem a sua vida, não escrevam “São Adso dos Anjos, doutor e monge”. Escrevam apenas: “Adso, que aprendeu a ser pequeno.”
Levantei-me. O silêncio era tão profundo que se ouvia o vento nas arcadas. Depois começaram os aplausos. Sabia que não eram para mim.
Saí para o claustro. O sol dourava as pedras. Sentei-me no banco onde o mestre costumava ler o breviário. Pela primeira vez em meses, as palavras vieram.
       Escrevi o último parágrafo:
«E assim termina a história daquele que nunca quis ter história. Que Deus o guarde na sua alegria sem fim. E que nos ensine a única coisa que pediu que lembrássemos: não é o hábito que faz o monge, é o coração que se deixa praxar pelo Amor.»
         Fechei o computador. Sorri sem esforço.
         No meu cubículo, a pequena estatueta de barro feita por um oleiro de Barcelos parecia observar-me. Abri o manuscrito. Trezentas e quarenta e sete páginas.
O título provisório dizia:
«Vida e Testemunho de São Adso dos Anjos»
Apaguei-o.
— Um último milagre, mestre. Só este.
Não houve trovões. Apenas o silêncio de Assis ao entardecer entrou-me no coração como uma pomba. E, dentro dele, ouvi a sua gargalhada clara, meio japonesa, meio portuguesa.
         — Chama-me apenas pelo nome que gostava, Carlos.
        A mão não tremia de dúvida, mas de certeza.
         Escrevi: MEU AMIGO YOSHI
       Ao terminar, o sol desapareceu atrás do monte Subásio, e a primeira estrela acendeu-se sobre a Porciúncula.
Fechei o manuscrito. Não era hagiografia. Nem biografia. Era uma carta de amor de um discípulo ao seu amigo.
Soube então que o mestre Adso sorria — não como santo, nem como herói — mas como aquilo que sempre quis ser.
Apenas amigo.
Beijei a testa de barro da estatueta.
— Obrigado, Yoshi. A epopeia terminou. Agora começa a amizade eterna.
E, lá fora, as estrelas acenderam-se sobre Assis, como aplausos silenciosos do universo.
Fim.
         — Estranho porquê?
         — Chamar-lhe São Adso. Para mim será sempre o mestre Adso. Conheci o homem antes da auréola.
            Assenti em silêncio.
           — Então, posso anunciar que vais falar?
         — Claro. Não tenho escapatória — confessei, suspirando.
           Sérgio levantou-se.
         — Vou andando. O meu aprendiz espera-me à entrada.
         — Vai em paz.
         Fechei a porta com suavidade, como quem protege o silêncio dos claustros. Voltei ao pequeno escritório na Casa do Capítulo. A luz de Novembro entrava tímida pela janela ogival e pousava, fria, sobre as páginas quase concluídas.
        Coloquei os dedos no teclado. As palavras não vinham. Em vez delas, surgiam imagens: o mestre ainda de jeans e camisola cinzenta, a rir-se dos caloiros que tentavam dobrá-lo na praxe; o mesmo homem, anos depois, de hábito castanho e sandálias gastas, a ensinar-me a fazer o nó do cordão franciscano com a mesma paciência com que explicava equações diferenciais; e, por fim, a fotografia que correu o mundo — ele, de joelhos na Praça de São Pedro, enquanto o Papa lhe impunha as mãos e o declarava «São Adso dos Anjos, testemunha da alegria no meio da tempestade».
           Suspirei. Como narrar alguém que sempre recusara ser narrado?
          Ouvi passos no corredor. Três toques discretos.
            — Entre.
          Era o Frei Tomás, o mais novo da comunidade.
       — Irmão José, estão todos na sala do capítulo. O Sérgio já anunciou… dizem que é hoje que fala.
         Sorri-lhe com ternura.
       — Diz-lhes que já vou. Só mais um minuto.
         Ele hesitou.
        — Posso perguntar uma coisa?
        — Claro.
        — O São Adso… quer dizer, o mestre Adso… ficaria zangado com isto tudo? Os cartazes, as velas, as multidões?
       Pousei-lhe a mão no ombro.
       — Zangado, não. Talvez triste. Ele dizia que os verdadeiros santos são aqueles de quem ninguém se lembra do nome, apenas do gesto.
         Quando entrei na sala do capítulo, o burburinho cessou. Havia frades, freiras, peregrinos e até jornalistas. Ofereceram-me uma cadeira simples de madeira no centro. Sentei-me. Respirei fundo.
         E comecei, sem notas, como ele me ensinara:
         — Irmãos e irmãs, não vim falar-vos de São Adso. Vim falar-vos do homem que, numa tarde de Março de 2020, fechou o computador após uma aula online, olhou para o crucifixo e disse: “Se é para ter medo, que seja de Ti, não do vírus.” Vim falar-vos do homem que bateu à porta deste convento com uma mochila às costas e um sorriso envergonhado: “Tenho quarenta e dois anos, uma cátedra de matemática e zero jeito para rezar as Laudes. Ainda assim, posso tentar?” Vim falar-vos do homem que abandonou tudo porque descobriu que a equação mais bela não estava nos seus artigos científicos, mas na bem-aventurança que diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” Queria, pela primeira vez, ser pobre de certezas.
Olhei em volta. Havia lágrimas.
— E até ao último dia recusou o título de santo. Quando o Papa lhe telefonou para anunciar a beatificação, respondeu a rir: “Santidade, enganou-se no número. Aqui só mora um pecador que aprendeu tarde demais a amar.”
O silêncio era denso.
— Se hoje acendem velas a São Adso, façam-no sabendo que ele preferiria que as acendessem ao irmão que está ao vosso lado. Aquele cujo nome ninguém sabe. Aquele que falha. Aquele que ainda não percebeu que Deus não escolhe os capazes, mas capacita os escolhidos. E se escreverem a sua vida, não escrevam “São Adso dos Anjos, doutor e monge”. Escrevam apenas: “Adso, que aprendeu a ser pequeno.”
Levantei-me. O silêncio era tão profundo que se ouvia o vento nas arcadas. Depois começaram os aplausos. Sabia que não eram para mim.
Saí para o claustro. O sol dourava as pedras. Sentei-me no banco onde o mestre costumava ler o breviário. Pela primeira vez em meses, as palavras vieram.
       Escrevi o último parágrafo:
«E assim termina a história daquele que nunca quis ter história. Que Deus o guarde na sua alegria sem fim. E que nos ensine a única coisa que pediu que lembrássemos: não é o hábito que faz o monge, é o coração que se deixa praxar pelo Amor.»
         Fechei o computador. Sorri sem esforço.
         No meu cubículo, a pequena estatueta de barro feita por um oleiro de Barcelos parecia observar-me. Abri o manuscrito. Trezentas e quarenta e sete páginas.
O título provisório dizia:
«Vida e Testemunho de São Adso dos Anjos»
Apaguei-o.
— Um último milagre, mestre. Só este.
Não houve trovões. Apenas o silêncio de Assis ao entardecer entrou-me no coração como uma pomba. E, dentro dele, ouvi a sua gargalhada clara, meio japonesa, meio portuguesa.
         — Chama-me apenas pelo nome que gostava, Carlos.
        A mão não tremia de dúvida, mas de certeza.
         Escrevi: MEU AMIGO YOSHI
       Ao terminar, o sol desapareceu atrás do monte Subásio, e a primeira estrela acendeu-se sobre a Porciúncula.
Fechei o manuscrito. Não era hagiografia. Nem biografia. Era uma carta de amor de um discípulo ao seu amigo.
Soube então que o mestre Adso sorria — não como santo, nem como herói — mas como aquilo que sempre quis ser.
Apenas amigo.
Beijei a testa de barro da estatueta.
— Obrigado, Yoshi. A epopeia terminou. Agora começa a amizade eterna.
E, lá fora, as estrelas acenderam-se sobre Assis, como aplausos silenciosos do universo.
Fim.



                              

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