24 Horas com Luís Miguel Rocha — Se a Vida Fosse Dragon Ball Z

 

Há dias em que dou por mim a pensar como seria se a vida tivesse as regras de Dragon Ball Z.

Lembras-te da saga de Majin Buu? Quando Son Goku recebeu autorização para voltar à Terra por apenas 24 horas, só para participar no Torneio Mundial? Vinte e quatro horas concedidas pelo além. Um prazo contado. Um milagre temporário.

E se fosse assim comigo?

E se, por um capricho do destino, o Luís Miguel Rocha me pudesse visitar por 24 horas?

Ah… eu sei exatamente o que faria.

Nada de cerimónias oficiais. Nada de discursos formais. Começávamos como as melhores histórias começam: com uma viagem de comboio. Sentávamo-nos lado a lado e seguíamos até Oliveira do Bairro. Eu queria apresentá-lo ao Zé, ao Hugo, ao David. Queria ver a expressão deles ao perceberem que aquele homem — o autor das histórias que nos prenderam tantas noites — estava ali, em carne e osso… talvez até com uma auréola imaginária sobre a cabeça, como se tivesse descido de outra dimensão só por um dia.

O Zé, claro, monopolizaria a conversa. Falaria de política, do mundo, da condição humana. Perguntaria sobre conspirações, bastidores, segredos que só um escritor habituado a mergulhar nas sombras poderia explorar. E o Luís Miguel Rocha ouviria com aquele olhar atento de quem transforma cada detalhe numa futura narrativa.

Depois haveria o momento quase sagrado: ele assinaria os livros que já repousam nas estantes. Cada dedicatória seria mais do que tinta — seria um selo de eternidade num objeto que já era precioso.

Mas o dia não ficaria por aí.

Telefonava ao André Ferreira. “Tens de vir. Agora.” Encontrávamo-nos no nosso café Tavi, na esplanada, no nosso lugar de sempre — aquele que já viu tantas conversas sobre livros, sonhos e frustrações.

Ali, a conversa mudaria de tom. Falaríamos de literatura. Dos livros que moldam a alma. Eu diria, com aquele entusiasmo que não se finge, que li e adorei Guerra e Paz — aquela vastidão de destinos cruzados, aquela reflexão profunda sobre a guerra interior de cada ser humano. E falaria também de Odisseia — a viagem interminável de Ulisses, o regresso adiado, o peso da saudade.

Talvez o André ficasse em silêncio por momentos. Não por falta de ideias — mas porque há ocasiões em que a admiração ocupa todo o espaço.

Depois, como se fôssemos apenas três amigos numa tarde banal, iríamos ao cinema. Comprar bilhetes sem grande critério. Rir, comentar, partilhar impressões. Mais tarde, passar pelo McDonald’s — porque até os grandes escritores merecem um hambúrguer simples e uma pausa despretensiosa.

Tiraríamos fotografias. Muitas. Umas sérias, outras desfocadas, espontâneas. Provas de que aquele dia aconteceu mesmo. De que não foi apenas imaginação.

E talvez, num impulso, eu ainda o apresentasse ao professor Paulo. Ele já ouviu tanto falar dele — sobre disciplina, persistência, inspiração. Seria um encontro breve, mas simbólico.

E então… a noite cairia.

A meia-noite aproximar-se-ia como um vilão silencioso. O relógio tornar-se-ia cruel. Cada minuto ganharia peso.

Quando chegasse o último instante, eu abraçá-lo-ia com força. Um abraço grato. Daqueles que não são apenas despedida, mas reconhecimento. E diria:

“Fica.”

Mas ele sorriria — aquele sorriso sereno de quem entende que as histórias têm princípio, meio e fim. Acenaria, talvez dizendo “até já”, como se a literatura fosse a verdadeira forma de regresso.

E partiria com a vidente que o trouxe, tal como Goku partiu na sua hora marcada.

E eu ficaria ali.

Com os amigos. Com as fotografias. Com os livros assinados.

E com a consciência de que a vida não é um anime. Não há regressos temporários concedidos por forças superiores. Não há 24 horas mágicas oferecidas pelo destino.

Mas há memórias.
Há palavras.
Há livros que nos visitam sempre que os abrimos.

E talvez seja essa a nossa verdadeira versão de Dragon Ball: não trazer alguém de volta por um dia… mas mantê-lo vivo em cada página que lemos, em cada conversa que partilhamos, em cada história que continua a ecoar dentro de nós.

 

André Vilaça




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