Testemunho de um autista que vive com ansiedade
Além de ter autismo, vivo também com ansiedade. A ansiedade faz-me criar
cenários na cabeça que, muitas vezes, nunca chegam a acontecer. No Budismo, o
Buda dizia que sofremos porque pensamos demasiado num futuro que ainda não
chegou — e isso faz todo o sentido para mim.
Dou um exemplo simples: o Zé pediu-me para lhe ligar
na próxima sexta-feira. Só isso foi suficiente para a ansiedade começar. A
partir desse momento, a minha cabeça não parou. Fico a pensar no que ele me
quer dizer, crio vários cenários e imagino respostas para cada um deles. Mesmo
antes da chamada acontecer, já estou cansado, como se tudo já tivesse
acontecido dentro de mim.Quando a ansiedade aparece, torno-me mais chato,
mais inquieto. Tomo algo para me acalmar e faço os exercícios que me ensinaram.
Resulta… mas só durante algumas horas. Depois, o pensamento volta, insistente,
como se nunca tivesse ido embora.
A ansiedade dá-me vários cenários: alguns bons, outros maus. Nos comboios,
por exemplo, surgem quase sempre os piores. Curiosamente, aquilo que a
ansiedade me mostra raramente acontece. Mas, mesmo sabendo disso, o corpo reage
como se fosse real.
No lançamento do meu livro, a ansiedade atingiu um ponto alto. Foi um
verdadeiro desastre emocional. A sala só podia ser alugada depois de o
professor Marco Neves confirmar o dia — mas ele não sabia quando seria. A
incerteza foi um momento muito difícil para mim.
O filme Divertida Mente 2 mostrou de forma fiel o que é viver com
ansiedade. Mesmo depois de tudo estar resolvido, ficam a angústia e a
preocupação. É como se o problema já tivesse desaparecido, mas o sentimento
ficasse para trás.
Ter ansiedade já é complicado. Ter ansiedade e autismo é ainda mais
tramado. É viver com a mente sempre a correr à frente do presente, sempre a
tentar proteger-nos de algo que, muitas vezes, nunca chega a acontecer.
Mas escrever sobre isto também é uma forma de resistência — e de
testemunho.
André
Vilaça



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