O último texto da trilogia da ansiedade

 

Este é o último texto da trilogia sobre a minha ansiedade. E, como quase sempre acontece, ela apareceu antes de qualquer coisa real acontecer.

Andei dias muito ansioso porque o Zé me pediu para lhe ligar esta semana. Disse que queria falar comigo sobre algo importante. Só isso bastou para a minha ansiedade fazer o que sabe fazer melhor: criar cenários. Muitos. Demasiados. Admito que fui um pouco chato com o Zé, porque achei — com alguma razão, na minha cabeça — que ele queria falar da nossa viagem à Suíça.

Acabei por desabafar com a minha mãe e com o meu amigo Rui. Sim, o Rui Veloso. O Rui, em vez de me acalmar, alimentou ainda mais a minha ansiedade ao dizer que achava mesmo que era sobre a viagem… mas aconselhou-me a não chatear o Zé. E eu segui o conselho. É curioso como a ansiedade parece ter medo do Rui, das suas palavras e da nossa promessa.

Hoje, finalmente, o Zé ligou. E sim, o Rui tinha razão: eu vou à Suíça. Estou tão contente. Mesmo feliz.

Sofri de ansiedade para nada. Tantos cenários criados, tantas histórias que nunca existiram. Tal como quando ando de comboio e a minha cabeça inventa problemas que não estão lá.

É tramado ser autista e ansioso. Muitas vezes, sem querer, acabamos por chatear quem mais gostamos, sem razão nenhuma. Ainda por cima sou budista — devia conseguir controlar tudo, não é? Mas a verdade é que nem sempre conseguimos. E talvez isso também faça parte do caminho.

Agora estou mais calmo. Mais leve. Suíça em maio… e em julho, na Suecia, a ouvir Luke Combs. E, claro, nem o concerto foi diferente.

Quando soube que o meu irmão ainda não tinha comprado os bilhetes, fiquei ansioso. Muito ansioso. Via os lugares a desaparecerem do site como o vento. Fui chato com ele também. Outra vez, sem necessidade. No fim, consegui os bilhetes. Vou ver o Luke Combs, como tanto desejava.

Assim termina esta trilogia sobre a minha ansiedade. Escrevi estes textos com a esperança de que, ao falar da minha ansiedade, possa ajudar alguém — nem que seja só a sentir que não está sozinho.

Às vezes a ansiedade grita. Mas, outras vezes, a realidade fala mais alto. E hoje, felizmente, falou. 🌱

                                                                       André Vilaça




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