Imperfeito, Ansioso e Budista
Sou
budista. Já o disse muitas vezes, a mim e aos outros. Ainda assim, deixo tantas
vezes que a ansiedade tome conta de mim, como se fosse o próprio senhor do
submundo, Mara, a tentar impedir que Buda alcançasse a iluminação. Conheço a
história, conheço os ensinamentos, mas mesmo assim a mente foge, corre,
antecipa, cria medos que ainda não existem.
A iluminação de Buda não foi um milagre distante
ou algo sobrenatural. Foi, acima de tudo, uma forma de pensar muito à frente do
seu tempo. Buda ensinou que sofremos porque vivemos presos ao futuro ou ao
passado, esquecendo-nos do agora. Talvez por isso chamemos a este momento de
“presente”: porque é uma dádiva que tantas vezes não abrimos.
Há uma frase do mestre budista João Magalhães, na
biografia do Buda, que me acompanha muitas vezes: “Buda era um ser humano
que ensinava seres humanos.” Esta frase conforta-me. Recorda-me que
o caminho não é sobre perfeição, mas sobre prática. Sobre cair, observar a
queda, e levantar-me com um pouco mais de consciência.
O meu irmão diz-me, às vezes, que sou
demasiado ansioso e que, por isso, não estou a ouvir verdadeiramente os
ensinamentos de Buda. O professor Paulo colocou a questão de outra forma: “Se és
budista, porque és tão ansioso?” Essas perguntas ficam a ecoar
dentro de mim.
Talvez a resposta seja simples e, ao mesmo
tempo, difícil de aceitar: sou budista porque
sou ansioso. Porque sofro. Porque a mente não pára. Porque preciso de um
caminho que me ensine a observar a ansiedade sem ser dominado por ela. O
budismo não me promete que deixarei de sentir ansiedade, mas ensina-me a não
ser apenas a minha ansiedade.
No fim, continuo no caminho. Imperfeito,
inquieto, humano. Como Buda foi. E como todos nós somos.
André Vilaça



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