Promessa Cumprida na Cidade Deserta
Quando
fui a Assis e me simpatizei com os Franciscanos, passei a admirar profundamente
São Francisco como o ser humano que foi. Foi aí que criei uma peregrinação
franciscana. Na altura, sofria de dores de cabeça terríveis e prometi a São
Francisco de Assis que, se não fosse nada de grave, iria até à igreja de São
Francisco a pé. Como não era nada sério, comecei a ir com a minha mãe. Além da
fé, há um caminho agradável pela beira-rio e, no fim, tirávamos uma selfie ao
lado da igreja — dever cumprido.
Quando o Hugo esteve no hospital por causa da
pandemia, prometi que iria com o Zé; entraríamos na igreja-museu e acenderíamos
uma vela a São Francisco. O Hugo voltou são e salvo e eu falei desta
peregrinação ao Zé. O problema é que estávamos no segundo confinamento,
proibidos de sair. Mesmo assim, eu e o Zé saímos. Mochilas aos ombros, fomos
até lá. O Zé queria ligar à mãe e à irmã para dizer que íamos numa
peregrinação, mas elas não atenderam. Então, ele tirava fotografias dos lugares
por onde passávamos para depois lhes mostrar.
Nunca tinha visto o Porto, até à Ribeira,
tão deserto, como se a humanidade tivesse sido extinta. Não havia viva alma. Só
eu e o Zé, passo a passo, pelo Hugo. Eu tinha prometido e tinha de cumprir. A
minha professora, Doutora Augusta Azeredo, dizia que devíamos agradecer e não
sofrer pelo prometido. E era isso que fazíamos: íamos agradecer.
Se fôssemos apanhados a desobedecer ao
confinamento, pagaríamos caro. Mas, pelo Hugo, valia a pena. O Zé ainda
perguntou a um polícia que passava se a igreja estava aberta. De máscara no
rosto, tinha medo de contagiar e eu tinha medo de o contagiar a ele. Virámo-nos
para a igreja, tirámos uma fotografia — é esta que aqui está. Não acendemos a
vela pelo Hugo naquele dia.
Mais tarde, quando lá voltei com o
professor Paulo para agradecer por o fogo de Águeda não ter chegado a Oliveira
do Bairro e por o Zé estar salvo, acendi então a vela pelo Hugo a São
Francisco.
Voltámos com a promessa paga, bem e
felizes. O dia estava nebulado e deserto, mas pelo Hugo valeu a pena. Não
valeu, Zé?
André Vilaça



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