O Robô que Sonhava com Mazinger Z - mais um conto que escrevi estilo ISAAC ASIMOV

 

 Numa manhã quente de terra batida, um robô corria por uma rua estreita da aldeia com uma mochila escolar balançando nas costas. Tinha pressa. Devia chegar a tempo — era a sua obrigação. Os camponeses erguiam a cabeça ao vê-lo passar. Alguns velhos resmungavam entre dentes:
              — Malditas máquinas...

               Mas todos tinham o seu robô. Uns para arar a terra, outros para carregar peso, outros simplesmente para fazer companhia aos mais velhos. A crítica era tradição; a dependência, realidade. Na porta da escola, as crianças entravam alegres e barulhentas. Um menino ouviu o seu nome.
           — Yoshi!

              O robô parou diante dele, ofegante no seu próprio ritmo mecânico, e estendeu a mochila.
          — Pegue, menino Yoshi. Esqueceu-se em casa outra vez.

             Yoshi riu, coçando a nuca.
            — Hó, que cabeça a minha! Vai para casa, Song. Os robôs não podem andar sozinhos na rua, é a lei.

             — Eu só conheço as Três Leis Robóticas, meu senhor — respondeu o robô com serenidade.

            Song era um D2VD, modelo antigo, fabricado para uma família japonesa que agora vivia nos Açores. Caminhou de regresso pela aldeia tranquila, passando pelos campos onde o vento trazia cheiro a mar e a terra molhada. Parou junto ao miradouro dos Ilhéus de Vila Franca do Campo. O mar brilhava ao longe, vasto e calmo. Mesmo sendo apenas circuitos e metal, Song guardava um sonho: queria ser Mazinger Z. Em casa, no quarto de Yoshi, havia uma maquete do grande robô que o menino trouxera do Japão. Muitas noites, Yoshi subia para os ombros de Song e fingia comandá-lo como Jiro comandava o Mazinger.
             — Mazinger Z salva o mundo! Principalmente o Japão, dos monstros robôs do Doutor Inferno!
           — Menino, eles são monstros e não seguem as Três Leis — observava Song.
            — Claro que não! Isto é manga! Olha como o Mazinger arranca as cabeças deles!

             Yoshi ria. Song, com os olhos fotossensores brilhando suavemente, murmurava:
            — Uau, menino… Eu quero ser Mazinger Z.

              Os anos passaram como as nuvens sobre o vulcão. Yoshi cresceu, terminou o secundário e preparou-se para partir para a universidade no continente. Na manhã da despedida, Song ficou parado à porta, o corpo já gasto, as juntas rangendo levemente.

           — Eu te levaria, mas não deixam robôs na universidade — disse Yoshi, com a voz embargada.
           — Ainda por cima sou modelo antigo — respondeu Song, tentando soar leve. — Divirta-se e estude, menino Yoshi.

               O abraço foi forte. Yoshi sentiu o metal frio contra o peito. Então Song abriu um pequeno compartimento escondido no tórax e retirou, com cuidado, a velha maquete de Mazinger Z.

           — Ainda a guardas? Não acredito… — murmurou Yoshi, admirado.
              — É o meu herói. Tal como tu.

              Yoshi engoliu em seco.
            — Hó, Song… assim me deixas sem jeito. Tenho de ir. A nave já deve ter chegado.

         — Adeus, menino Yoshi.
         
— Go go Mazinger Z.
         — Go go Mazinger Z.

              As visitas de Yoshi tornaram-se menos frequentes com o tempo. Song envelhecia. As peças eram substituídas com dificuldade, o andar tornara-se lento, por vezes parava no meio de uma tarefa, perdido em avarias silenciosas. Mesmo assim, sempre que podia, parava no miradouro e contemplava os Ilhéus e o horizonte.

             — Sempre gostei de ver a ilha — dizia baixinho. — Sonhei um dia ir a Barcelona ver a grande estátua do Mazinger Z.

           Quando Yoshi ouviu o desejo, sorriu.
        — Eles têm lá uma?
          — Sim. Queriam fazer um parque temático, mas a Toei Animation não permitiu. Ficou só a maquete gigante.

          — Sabes uma coisa? — disse Yoshi. — Vou realizar o teu sonho.

             Passado algum tempo, Yoshi regressou aos Açores. Levou Song consigo numa longa viagem até Cabra del Camp, em Espanha. O robô velho caminhava devagar ao seu lado, admirando tudo com os sensores cansados. Quando a grande estátua de Mazinger Z surgiu, imponente contra o céu, Song parou. Levantou os braços devagar, como se preparasse um golpe final de um combate épico.
            — Go… Go… Mazinger Z!

               Uma luz suave brilhou nos seus olhos. Depois, apagou-se para sempre. Na sede da U.S. Robotics em Espanha, os técnicos fizeram tudo o que era possível. Repararam circuitos, substituíram componentes, reiniciaram sistemas. Quando finalmente o ligaram novamente, colocaram diante dele uma fotografia: Song ao lado da grande estátua, braços erguidos em vitória. Pela primeira vez na sua longa existência, o robô sorriu.

    Fim.




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